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Mundo, Quarta-feira, Junho 30, 2004
Quem precisa de guias?

De fato, quem precisa de guias quando a propria natureza jah eh tao... obvia? Falei que tinha lido em algum lugar que Filipinas era um dos lugares mais vulneraveis do mundo (tufoes, terremotos e outras incoveniencias...). Fui pesquisar. Tah lha no guia Lonely Planet: Em 2000, um centro de pesquisas da Belgica declarou as Filipinas como o lugar na Terra mais provavel de acontecer acidentes naturais. As evidencias? Tufoes, terremotos, erupcoes vulcanicas, enchentes, deslizamento de depositos de lixo... Se voce achar que estou inventando, eh soh pesquisar na internet... Mas, como eu dizia, pra que a gente precisa de um guia pra nos contar isso quando a propria natureza jah deixa claro que, se voce vier pra cah... eh melhor apertar os cintos. Mesmo! A aterrissagem em Manila foi, digamos, a mais turbulenta ateh agora. O ceu estava fechado, tudo bem. Mas a violencia dos ventos reforcava a mensagem de que voce estava entrando em territorio arriscado... Foi o tempo de chegar no hotel e o ceu comecar a desabar... Foi quando a gente descobriu que a reserva que eu havia feito pela internet ontem nao estava batendo com os registros do hotel... Quer noticia melhor que essa quando lah fora o vento e a chuva estao arrancando folhas de palmeiras? Acabamos indo para um outro hotel e, como era uma emergencia, ficamos em um que... bem, estah um pouco acima do nosso orcamento... Mas era uma emergencia, entende?? O mundo despencando lah fora (jah estah um pouco melhor agora; chovendo, mas melhor) e voce, cheio de malas, sem lugar pra ficar? Ah... tava valendo ateh suite presidencial!! Por conta disso, ainda nao dah pra falar muito das impressoes sobre Manila. Estou fascinado pela lingua - que voce nao entende nada, mas, de repente escuta uma palavra em ingles, outra em espanhol... E, veja que coincidencia, chegamos no dia da posse da senhora Arroyo!! Todos os canais de TV s'o falam nisso... Mas eh soh por enquanto. Amanha que as coisas comecam a acontecer... Isto eh, se a natureza nao se esforcar um pouco mais pra provar que nao estah aqui para facilitar a vida dos filipinos...


Mundo, Domingo, Junho 27, 2004
Tenho exatos três minutos...

...pra escrever isso e partir para o aeroporto. Claro, com parada em Bangkok, para ver vistos, passagens, hotéis e, claro, matar as saudades dos táxis, sempre tão confiáveis na cidade... Mas eu quero é falar de Manilla. OBRIGADO!!! Essa foi a melhor surpresa até agora: pela primeira vez estou indo para um lugar do qual conheço muito pouco (claro, a gente acompanha as turbulências políticas de lá, mas é sempre tudo muito superficial) - e quer algo mais excitante que isso pra essa Volta ao Mundo? Só estou tentando lembrar onde eu li que alguma organização internacional declarou as Filipinas como um dos lugares mais vulneráveis a acidentes de todo tipo (tufões, terremotos e outras temeridades...). Vou pesquisar melhor - e conto de lá... De Manilla!!
(só um adendo rápido: vendo a foto daqui de baixo, acho que ficou faltando explicar que o que eu estou comendo na porta do templo Preah Kahn é um abacaxi! já estou com um pouco de saudades do Camboja...)

Angkor express

Primeiro você precisa entender que eu (e o Guilherme) estamos num cybercafé desde às 7h da manhã. Depois você precisa ponderar que existem pelo menos 763 coisas mais legais para se fazer em Siam Reap (e, claro, você tem que pesar também o fato de que se a gente não estivesse aqui desde às sete da manhã, o material todo não chegaria a tempo pro Fantástico desta noite...). Aí, você precisa se lembrar que entre essas 763 coisas, tem uma que se chama Angkor, um dos monumentos mais lindos do mundo - e que a gente nunca sabe quando pode visitar de novo (isso aqui é o Camboja!! do outro lado do mundo!!). Pensou em tudo isso? Então eu acho que você vai me dar razão... Dei uma fugida da rotina e fui me despedir de Angkor!! Na verdade saí pra comer - tinha combinado um "rodízio" com o Guilherme: ele sairia por duas horas e eu, depois, por mais duas, pra não deixar os computadores sozinhos (saudades da turma da Nova Zelândia, que fazia esse "bico" pra gente...). Era a minha vez de comer, mas... passou um motoqueiro (como duzentos que passam todo dia por você na rua com essa proposta) e perguntou: "Sir, want go Angkor Wat, sir?" (a reprodução é apenas aproximada do inglês que eles usam para abordar o turista; imagine que a frase é dita sem articular o maxilar - esse é o som que a gente ouve aqui o dia inteiro. A gente nunca deu bola pra esses convites - estamos trabalhando, lembra, sem tempo pra passear!! Mas me deu um estalo! Perguntei quanto era. Ele disse: "ten dolar!". Ficou por cinco. E lá fui eu bem contente gastar minhas duas horas de almoço. Só que, claro, 120 minutos pra passear no complexo de Angkor (que levamos dois dias pra cobrir para a TV) não é nada... Foi aí que eu pensei em fazer um roteiro "express". Passamos por Angor Wat e Bayon (de moto), pelo terraço dos Elefantes (caminhando), pelo palácio real... até que uma placa me chamou a atenção: Preah Khan. Me lembrei que visitei este templo da última vez que estive aqui. Não fomos dessa vez porque... bem, cem templos! Você tem que escolher apenas alguns se quiser fechar a reportagem pra este domingo. Mas me lembrei que tinha gostado de Preah Khan. Se minha memória não me traía, era uma espécie de harem... Falei pro motoqueiro (Mr. Lee): "toca pra Preah Kahn". Minha memória estava quase certa - pelo menos no quesito beleza. Apesar de bastante destruído, o templo tem esculturas lindíssimas. Mas quanto ao harem... era na verdade um lugar dedicado às festas e às artes - especialmente a dança. Várias "apsaras" (dançarinas em khmer, segundo os guias) estão esculpidas na parede - e é inevitável notar um clima alegre entre tantos destroços. Um garoto que perambulava por lá me ofereceu para mostrar uma estátua da deusa de pedra e, como não me lembrava de ter visto isso da última vez, aceitei. Fomos entrando em corredores e câmeras escuras (preciso acrescentar... abafadas?) até que vi a escultura - e aproveitei pra fazer umas orações (sei lá pra quem... mas sei "por quem": pelas pessoas queridas que eu tenho!!). Até que olhei no relógio... E olhei para o céu. A combinação tempo e clima me fizeram sair correndo - estava no fim das minhas duas horas e cheguei a pegar chuva (na moto) no caminho da volta. No relógio foi mesmo muito depressa... Mas na lembrança, foi infinito, a melhor coisa que poderia ter acontecido pra eu sair feliz do Camboja. E a melhor coisa que poderia acontecer aqui pro Blog da viagem também, porque essas fotos, essas imagens, são exclusivas pra você que me lê! (mas isso não é motivo pra você deixar de ver as reportagens de hoje no Fant, hein??)

Mundo, Sábado, Junho 26, 2004
Se eu tivesse mil olhos...

Eu já tinha passado por essa experiência no ano passado (quando visitei o Camboja de férias), mas agora eu tenho o Guilherme, repórter cinematográfico experiente e meu companheiro nessa viagem para confirmar que os templos de Angkor não cabem no olhar humano. Muito menos nas lentes de uma câmera de vídeo - que dirá numa pobrezinha câmera de fotos digitais. Não que as imagens que você vai ver nesse domingo não sejam espetaculares. São incríveis sim, mas por mais incríveis que elas sejam, é impossível capturar a beleza e a grandiosidade desse lugar com apenas um olhar. A vontade é a de que a gente tivesse olhos por toda a cabeça pra tentar entender o que estamos vendo. Por exemplo, Bayon (esse é só um dos templos do complexo de Angkor). Suas torres de pedra, cada uma com quatro faces de um buda sorridente olhando para os pontos cardeiais são a coisa mais próxima de um jogo de espelhos - sem usar sequer um reflexo de vidro. Todos os rostos tão serenos quanto o do próprio Buda (calma... ainda não me converti, apesar de ter extrema simpatia pela religião). Você se fixa em um e imediatamente sua atenção é roubada por outro. É como se alguém tivesse jogando fliperama com seus olhos. Não importa quanto tempo você fique passeando nessas torres, a sensação é a de que ficou faltando ver alguma parte delas. Ou as piscinas de Neak Poan (na foto acima)... Mesmo vazias, elas evocam uma calma e uma tranquilidade que é impossível não aceitar o convite à reflexão. São cinco espaços abertos pedindo a sua instrospecção (e como esse é um templo distante, é fácil aproveitar o lugar sem as hordas de turistas que já começaram a invador Angkor). E as árvores que praticamente engoliram o templo de Ta Prohm? Raízes enormes se misturam à construção exuberante e fazem um cenário surreal. O que é mais bonito nesse local, a marca do homem ou a da natureza? Será que isso também vai "caber" na nossa câmera. Eu e (nesse caso mais especificamente) o Guilherme estamos fazendo o possível para que sim, para que o que você vai ver no domingo faça um mínimo de justiça para a maravilha que é Angkor. Que a tela da TV também adquira mil olhos!! E eu nem comecei a falar de Angkor Wat e do monge que parou pra conversar comigo por lá...

Mundo, Quinta-feira, Junho 24, 2004
Banho Khmer e outros aspectos dessa cultura milenar...

Não existe melhor maneira de acordar: logo cedo, um banho khmer nos espera no nosso albergue. Nossa acomodação aqui recebe essa designação, mas é um pouquinho melhor do que isso. No esquema que estamos viajando, não dá pra ficar em albergues como esses que a gente fica quando não tem um tostão e mesmo assim resolve viajar pelo mundo. São os já famosos 130 quilos de equipamento, a fragilidade de alguns deles - pra não falar da segurança - e a gente ficaria sempre preocupado se soubesse que esse material todos estivesse desprotegido num albergue. Assim, escolhemos sempre hotéis que estejam entre duas e três estrelas, compatíveis com o orçamento da viagem e com nossas necessidades, digamos, "técnicas". A faixa não muda, mas conforme o lugar onde chegamos, é possível ficar melhor hospedado por um preço menor. Com o que pagamos por um quarto bastante apertado em Sydney, estamos em um chalé, com varanda e jardim em Siam Reap. Paraíso? Bem, vamos retomar o banho khmer (lembrando que khmer é não só a língua do Camboja como também toda a herança cultural do passado desse povo). Espaço não é problema nessa nossa acomodação. Mas o banho... é pros aventureiros: um vaso enorme de barro, com água fresca (trocada todos os dias) e uma cuia. Parece estranho, mas com o calor sem trégua lá fora, o método khmer de se banhar parece bastante razoável. Existe também no banheiro um chuveirinho elétrico bem meia-boca, mas você acha que eu vou trocar isso pela experiência do banho khmer? Passa essa cuia aqui que eu vou me refrescar... Bem, pra falar de outros aspectos... mais culturais da civilização khmer, hoje visitamos a montanha sagrada de Kulen, onde tudo começou... Século 9 (nove mesmo!), coisa recente... Visitamos vários monumentos, o mais impressionante deles, o Buda deitado, onde tiramos essa foto com nosso lorde inglês-cambojano, Sam. Mas as imagens que vocês vão ver no domingo estão mais bonitas do que qualquer descrição que eu possa fazer aqui - e eu estou precisadíssimo de um banho - ainda que seja khmer!

Mundo, Quarta-feira, Junho 23, 2004
Das coisas que eu achei que eu nunca fosse passar nessa vida...

São nove horas da noite em Siam Reap, eu estou na garupa de uma moto, com um computador debaixo do braço tentando desmentir o cambojano que me falou que não existia internet de alta velocidade por aqui... Como assim?? Como eu vou mandar a matéria essa semana? Tem de ter uma, pelo menos uma internet poderosa em Siam Reap, em nome de todo o império Khmer!! Claro, se eu estou escrevendo esse texto, é porque minha respiração e batimento cardíaco já voltaram ao normal quando eu encontrei "the fastest internet access in town" (o acesso mais rápido à internet da cidade) - e isso não era propaganda enganosa!! Mas, como eu dizia, eu estava em cima da moto e dei aquela "saída de mim mesmo" (igual aqueles recursos narrativos em filmes-cabeça que a gente vê quando está na faculdade), e vibrei! Vibrei por não acreditar que estou voltando a um lugar tão especial como este em menos de um ano!! Você deve ter achado que o título deste texto se referia à cena da moto... Que nada! Apuros com esses a gente já se acostumou, a essa altura da viagem. Mas a "coisa que eu achei que eu nunca fosse passar nessa vida" é a oportunidade de voltar a Angkor. Nem visitamos os templos propriamente - ainda. Hoje foi daqueles dias de "trânsito" (chegar, entender o que está acontecendo, fazer contatos). Mas, só pra dar um gostinho, chamei o Guilherme para dar uma fugida até Angkor Wat, o principal templo do complexo que nos vamos visitar. O sol estava se pondo, batendo direto na construção. A água do lago que circunda Angkor Wat (e a maioria dos templos) estava alta, por causa das chuvas. E o espelho natural refletia uma visão que já seria estupenda se não fosse duplicada. Foi sentar e admirar (você vai ve essa cena, calma, domingo está logo aí!!). Bem, sentar, admirar e... sair às pressas atrás de uma internet de alta velocidade... Amanhã cedo, nosso primeiro passeio (à montanha de Kulen) com um guia/amigo que conheci na minha última passagem por aqui. Sam, é seu nome - um lorde inglês que nasceu aqui apenas por acaso...

Mundo, Terça-feira, Junho 22, 2004
Como se perder em Bangkok

É facílimo: pegue um táxi! E reze para ele te levar aonde você quer ir... Antes que você se pergunte: ué? o que ele está fazendo em Bangkok, eu já vou respondendo que estamos aqui tentando chegar ao Camboja (nosso próximo destino, lembra-se?). Mais uma peça de informação para você que acha que isso é passeio: seria ótimo voar direto de Cingapura para Siam Reap (Camboja). Mas a escala aqui em Bangkok é mais do que estratégica. Viemos pedir o visto oficial para entrar no próximo país. Isso foi fácil: chegamos lá, conversamos com as autoridades, fomos, diga-se, muito bem tratados. Mas... pra chegar lá... Quem disse que o nosso motorista acertava? Aliás, quem disse que ele falava alguma língua além do tailandês? Aliás, quem disse que ele lia alguma coisa em alfabeto que não fosse o dele (só para a informação, eu também não tenho idéia de que som têm as letras do alfabeto Thai! Infelizmente, pois elas são tão lindas!). Enfim, foram 90 minutos no táxi, no já famoso trânsito estagnado de Bangkok, até chegar na embaixada do Camboja. A comunicação entre nós - se é que a gente pode chamar aquilo de comunicação! - era caótica. Mas, depois de a gente parar pra perguntar para uns dois "tuk tuk" (o nome que aquela motinho com banco atrás tem por aqui), lá estávamos, recebendo informação de como proceder assim que chegar ao aeroporto de Siam Reap. Com metade do dia para aproveitar por aqui, peguei... um outro táxi! Desta vez, perguntei antes se ele sabia onde a gente iria (uma área chamada Sukhumvit cheia de lugares pra comer e barracas no meio da rua). Sentindo que a comunicação ia ser novamente impossível, caí fora. Peguei um "tuk tuk" já que a reputação deles era impecável. Bem, tenho novidades: o "tuk tuk" que eu peguei está manchando feio essa reputação!! Demos uma volta absurda para chegar onde eu queria - e o passeio que começou divertido foi ficando, digamos, tenso - tava estampado na minha cara e na do Guilherme... Mas não é isso que vai estragar nosso único dia na cidade: voltamos no superpoderoso, superlimpo, supereficiente Sky Train, uma linha ultra rápida que corta a cidade por cima das avenidas, em dois sentidos e que reduziu nosso trajeto, dos 40 minutos de "tuk tuk", para meros 7 minutos. E acho Bangkok o máximo - e mesmo que ele não seja uma escala "séria" da nossa Fantástica Volta ao Mundo, vou aproveitar o resto do dia - e da noite! - aqui. Sim, porque, amanhã chegamos ao Camboja - isto é, se o nosso táxi conseguir acertar o caminho do aeroporto!

Mundo, Segunda-feira, Junho 21, 2004
Minhas férias...

Claro que o título acima NÃO se refere a este projeto... Mas é que eu fui ao Camboja de férias no ano passado. Andei por aqueles templos incríveis e... sem brincadeira... cheguei a pensar: "puxa, seria legal fazer uma reportagem aqui...". Bom, vamos pra lá. Às vezes é bom acreditar em algumas coisas - mesmo que elas pareçam impossíveis. Quem diria... em menos de um ano, estou voltando pra lá. Mais do que qualquer lugar que a gente já passou até agora, esse eu garanto: você não vai se decepcionar...

Mundo, Domingo, Junho 20, 2004
Eu comi durian - e vivi para contar a história...

Desde o primeiro dia que a gente chegou aqui em Cingapura, todo mundo - TODO MUNDO - pergunta se eu já experimentei o durian. Esse é o nome de uma fruta que os cingapurenses adoram, ou, colocando melhor, eles têm uma relação de amor e ódio com ela. Considerado um "néctar dos deuses", o durian tem só um probleminha... fede como o cão! As histórias eram tão absurdas (você fica uma semana cheirando à fruta; ao comer uma delas, ninguém senta perto de você; tem lugar que é proibido até carregar a fruta!!) que fiquei desconfiado, achei que era "lenda urbana"... Até que, na entrada de uma estação de metrô... Uma placa que estipulava multas de mil dólares cingapurenses para quem entrasse fumando também trazia outro alerta: proibido o consumo de durian!! Será que era tão ruim assim mesmo... Pensei bem. Pensei muito bem. E criei coragem para ir ao mercado... Eram poucos que estavam ali a desfrutar o tal "néctar", mas um cara que comia com a melhor cara do mundo me ofereceu pra tirar um naco da fruta dele. Cheguei perto e... de fato, o cheiro era insuportável, meio podre, meio azedo, meio de carniça... Não é brincadeira!!! Mesmo assim, era tarde demais pra desistir: resolvi tirar um pedaço bem pequeno - do tamanho de uma ponta de caneta esferográfica, só para, digamos, um experimento científico... e... você acredita se eu disser que estava uma delícia??? Não a ponto de eu me entusiasmar e comer uma fruta inteira - o medo da "maldição do fedor de uma semana" ainda era muito presente... Mas deu pra entender porque algumas pessoas arriscam a humilhação pública para comer durian...

Esse foi um dos sabores finais dessa nossa escala - e olha que o paladar aqui quase enlouqueceu. Comidas de todos os tipos, de todas as culturas, por tudo quanto é lado! Malaia, vietnamita, tailandesa, chinesa (você tem que ver neste domingo nosso passeio por Chinatown!) e até indiana! Ah... se eu for começar a contar nosso passeio pelo bairro conhecido por "Little Índia"... Vamos dizer só que foi lá que eu encontrei um DVD daquele filme que eu assisti na classe executiva do avião de Sydney pra Cingapura. Aquele mesmo "Boys" - aquela celebração de cultura pop enlouquecida (obviamente, uma pequena fração dos títulos da loja que eu entrei por lá - entrei e logo saí, se não, ia ser prejuízo na certa... e eu preciso economizar um pouquinho pra ver se nesse domingo, antes do Fantástico ir ao ar, eu ainda pego algumas ofertas num dos 4.537 shoppings por aqui!!). Vou dar uma passeada em Orchard Road - só pensando no próximo destino...

Mundo, Sexta-feira, Junho 18, 2004
Fantastiicu kaminyu na tudu terra di mundu

Isso é kristang. Isso também: "medico falah misteh tomah mizinia kuatu oras imbes". A primeira frase é fácil de entender... Já a segunda, bem, quer dizer: "o médico falou que o remédio deve ser tomado a cada quatro horas". Essa frase surreal está no livro "Eurasian Heritage Dictionary", das senhoras Valerie Scully e Catherine Zuzarte. E o que isso tem a ver com Cingapura? Tudo! Primeiro, os eurasianos: é assim que se chamam as pessoas de "sangue misturado", como se diz por aqui, meio europeu, meio asiático. Se alguém aqui é de família malásia, indonésia, cingapurense, etc. mas tem antepassados europeus, pronto, ela é eurasiana. Em Cingapura, as principais "famílias" são de origem holandesa, inglesa e portuguesa - como a dona Valerie. Seus avós tinham o sobrenome Rodrigues e vinham de Malacca, uma cidade na Malásia que foi antiga colônia portuguesa. Da mistura do nosso português com o malaio surgiu o Kristang - língua hoje praticamente esquecida (dona Scully se entristece ao falar que a língua vai "morrer"...). Mas não em Cingapura. Como a ilha já fez parte da Malásia, algumas famílias de Malacca vieram pra cá - até que um dia um repórter que está viajando pelo mundo... bem, você sabe o resto. Isso, essa cultura fascinante, é só uma parte de Cingapura. Se eu fosse contar tudo aqui no blog, você teria de tirar uma semana pra ler (e eu, uma pra escrever!). Tem tanta coisa legal que já estou prevendo até que vai ser difícil condensar tudo nas reportagens de domingo. Aliás, já vou avisando: elas estão bárbaras, bem diferentes do que a gente viu até agora. Mas como será que vamos conseguir registrar tudo? "Bong furtuna" - "Boa sorte" em kristang... E só pra te deixar com um pouco mais de curiosidade, aqui vai mais uma frase surreal: "Abo podi bibeh ungua sentu anu" (depois eu empresto o dicionário...)

Mundo, Quarta-feira, Junho 16, 2004
Jornada bipolar

Já ouviu falar em personalidade bipolar? Uma pessoa que um dia está de um jeito e no outro dia mudou completamente? Isso é um distúrbio psicológico que pode variar até em intervalos de horas - ou mesmo minutos. Bem, nosso dia de chegada a Cingapura foi assim: totalmente bipolar! Começou "sofrido": inseguro quanto à hospedagem em Cingapura, fiquei tentando organizar isso, sem sucesso, até tarde, na segunda-feira. Dormi cerca de três horas porque nosso vôo era cedo de Sydney para Cingapura. Oito horas dentro do avião. Cheguei até a achar bom ser uma viagem longa, já que, no estado de cansaço que eu estava, até cadeira de classe econômica pareceria cama de sultão para dormir. E, de fato, eu já estava pegando no sono, antes mesmo de o avião decolar quando o capitão anuncia que teremos de sair da aeronave: ela não vai poder decolar por problemas técnicos. Seríamos todos transferidos para o próximo vôo, dali a 5 (CINCO!) horas... Voltamos para a sala de embarque, onde o tempo passava tão depressa quanto a órbita de Plutão! Mas... quando chegou a hora de trocar de cartão de embarque, fez-se a luz!! Ganhamos um "upgrade": oito horas de classe executiva. Tivemos um ataque de riso de tão contente que ficamos - e nosso atitude pelos corredores do segundo andar no Jumbo era quase infantil. Mas você acha que alguém estava ligando? Que nada! Comemos bem, assistimos a filmes ótimos - e dormimos... na horizontal! Felicidade completa... até chegarmos em Cingapura e descobrir que não havia um hotel decente com vaga para dois jornalistas em missão de viajar pelo mundo para onde que o público escolhesse... Tínhamos algumas indicações, e fomos de uma em uma pedindo "humildemente" um quarto para dormir (lembrando sempre que estamos com 7 volumes, num peso total de 130 quilos). Até que em Chinatown (o bairro chinês de Cingapura) encontramos uma esperança: uma gerente chamada Khali disse que poderia ser que ela tivesse um quarto vago para aquela noite. Eram 19h... Mas se a gente esperasse um minutinho lá fora, talvez (TALVEZ) ela viesse com uma boa notícia.

Bem... "lá fora" significava "no meio da rua com as bagagens" e envolvidos por uma temperatura de 29 graus - repetindo, às 19h!! Ah, e o "minutinho" dela acabou significando duas horas cheias. Mas não tínhamos opção. Pintou, é claro, um desespero - até uma irritação involuntária entre os membros da equipe, por causa, obviamente, do estresse da situação. E... quando tudo ameaçava piorar (a lembrança da classe
executiva já evaporada na memória), Khali aparece e diz que tem um quarto pequeno, mas muito aconchegante... Poderia até ser o armário da tábua de passar roupa! Entramos exultantes. E o quarto acabou superando nossas expectativas: espaço relativo, ducha decente (não estamos pedindo mais que isso...) e, o maior presente: uma conexão de internet no quarto! Isso significa que não vamos precisar ficar horas em cyber cafés!! Podemos mandar tudo daqui (de onde escrevo agora) e sair para fazer matéria sem medo do equipamento ser roubado! Encerramos o dia exaustos, mas, apesar de tantas variações entre boas e más notícias, o saldo foi positivo. E amanhã quero acordar pronto para explorar Cingapura (se bem que se a essa hora da noite a temperatura era essa, o que esperar do meio-dia de amanhã???)

Bollywood, Timbalada, Backstreet Boys, All That Jazz, Sandy & Junior e o que mais você quiser!!!

Essa entrada do blog era para ter outro título. Ia se chamar "O filme mais legal que você vai ver este ano - se um dia ele estrear no Brasil". Teria sido uma referência à produção que eu assisti na classe executiva do vôo de Sydney para Cingapura (eu sei, eu sei... quem falou que a gente podia viajar de classe executiva? Dá pra esperar um pouquinho pra gente falar disso? Obrigado!). Esse filme genial chama-se "The House of Sand and Fog" ("A Casa de Areia e Fogo" - numa tradução apressada...). Talvez você tenha ouvido falar nele, pois ganhou algumas indicações para o Oscar desse ano, como o de melhor ator (Ben Kingsley) e melhor atriz coadjuvante (Shohreh Aghdashloo). É baseado num livro também genial, com o mesmo nome (li em inglês, e desconheço se existe uma tradução - se alguém souber, me conte; o nome do autor é Andre Dubus III). E é uma história com aquele tema que me cativa recentemente, sobre como uma sucessão de eventos pode desencadear um desastre atrás do outro e levar à tragédia. Fiquei muito abalado assistindo esse filme na classe executiva do avião (já conto!). Tão abalado que, para espairecer, resolvi pegar outra seleção de cinema, algo que eu achei que não fosse nem prestar atenção: um filme indiano chamado "Boys" - esse sim, eu garanto que não vai passar tão cedo no Brasil... Bem, o filme serviu para mudar meu estado de espírito, mas quanto ao quesito "nem prestar atenção"... impossível. O filme é uma típica produção de Bollywood - a milionária indústria cinematográfica da Índia, que produz mais filmes por ano que Hollywood - e isso não é um exagero. Produzem um filme atrás do outro, quase todos muito iguais, romances, cheios de números musicais no meio, uma história pra lá de confusa e - adivinhe... - um final feliz! Peguei o filme quando ele já havia começado, não estava entendendo muito bem, um grupo de garotos, um deles apaixonado por uma menina. Os pais não querem o namoro (hummmm), eles fogem e casam. E gravam um disco. E passam fome. E escrevem uma música considerada subversiva pelo governo. E vão presos. E são soltos. E tudo isso na primeira meia hora que eu assisti... Ainda acontece muito mais coisa - e muito rápido. Um deles morre, a menina descobre que o marido saiu, anos atrás com uma prostituta, ela volta pra casa dos pais... E ainda tinha 40 minutos de filme! E, costurando tudo isso, tudo - TUDO - que você pode imaginar de cultura pop (leia o título acima!). Um vale-tudo delicioso que mudou totalmente meu estado de espírito (apesar de eu ainda achar que "The House of Sand and Fog" é genial) e me fez refletir sobre essa viagem: como é bom viver numa época onde toda a cultura é global, onde as referências são mundiais, étnicas e ao mesmo tempo de lugar algum. Esses filmes de Bollywood são uma celebração da cultura pop universal - e é mais ou menos isso que eu vou encontrando pela viagem (e tenho a sensação de que isso só vai ficar mais forte conforme formos entrando pela Ásia). É um prazer viver num mundo assim, e escapar dos clichês que sempre ouvimos: os tibetanos são assim... os neozelandeses são desse jeito... os havaianos são dóceis e amigáveis... Não agüentava mais ouvir esses lugares comuns e, uma das minhas "missões pessoais" nesse projeto era descobrir exatamente que esses clichês já não valem mais. Pode ser um pouco cedo - ainda temos três meses pela frente, mas acho que já estou descobrindo isso. E nem por isso o mundo fica menos interessante. Nem por isso a gente se sente menos uma parte dele. Pelo contrário! Que coisa boa é ser igual a todo mundo - ainda que seja na diferença!! Eu ainda teria de contar a história de como essa equipe (eu e o Guilherme) que viaja sem nenhum luxo foi parar na classe executiva de um avião. Mas esse texto está ficando muito longo. Deixa para a próxima entrada, já com as primeiras impressões de Cingapura...

Mundo, Segunda-feira, Junho 14, 2004
Zen e a arte de procurar a Bienal de Sydney

Fui comemorar o nosso novo destino (Cingapura! aqui vamos nos!) terminando de ver a Bienal de Sydney - aquela exposicao que eu falei no final do texto anterior. A mostra eh enorme, espalhada por toda a cidade e nao consegui ver tudo ontem. Cheguei a ver uma boa parte e ter duas agradaveis supresas: trabalhos de dois artistas brasileiros que de alguma maneira eu conheco. Primeiro, Monica Nador, que eh (ou era?) amiga de uns amigos meus nos anos 80... Conheci a Monica (que tinha - nao sei se ainda tem - o apelido de Conca) quando ela ainda fazia seus primeiros trabalhos e depois sempre acompanhei de longe. Os seus trabalhos tem a ver hoje com pinturas de padroes em casas de gente simples, em Cuba, no Mexico e no Brasil. Fiquei feliz de ver o Brasil representado aqui por ela. O outro artista eh o Rubens Mano, fotografo com quem cruzei no tempo que eu ainda trabalhava em jornal (final dos anos 80) - e que tambem estah com um trabalho interessante por aqui. Mas o que o zen tem a ver com isso? Bem, como eu disse, a exposicao eh espalhada pela cidade - e hoje decidi ver o que nao estava no Museu de Arte Contemporanea. Um dos pavilhoes de exposicao era a Galeria de Arte de New South Wales, que, conclui olhando o mapa, ficava perto do Jardim Botanico Real. As coisas aqui fecham cedo - e com a Bienal nao era diferente: 17h era o limite. Soh que... bem, eram 16h15 e eu estava perdido andando pelo Jardim Botanico... 16h30 comecou a dar um certo desespero, ateh que a paisagem por onde eu andava comecou a "fazer efeito". Os jardins em que eu caminhava comecaram a chamar minha atencao e eu percebi que estava nadando em um lugar exuberante, lindissimo, alias... Uma mistura esquisita de vegetacao, uma certa desordem botanica, quase uma sinfonia de folhas e tons de verde que, em apenas alguns minutos, me fez esquecer por completo minha ansiedade de terminar de ver a Bienal. Perambulei sem destino pelo Jardim Botanico ateh que... adivinha o que eu encontrei na minha frente? A Galeria de Arte de New South Wales!! A essa altura eu tinha soh 15 minutos pra visitar tudo. Mas era uma parte menor da Bienal - e foi o tempo exato! Onde estah o zen da historia? Precisa explicar? Quem sabe ateh o proximo "boletim", de Cingapura, a ficha jah caiu...

Mundo, Domingo, Junho 13, 2004
Nem tudo é canguru fofinho...

Pausa para os bastidores: depois de três dias corridíssimos na Tasmânia, já estamos de volta a Sydney (queríamos até ficar mais, mas por causa de um feriado nesta segunda-feira - aniversário da rainha! - não encontramos passagem) e enviando os arquivos de imagem pra reportagem deste domingo. Mas, esses detalhes você já conhece. Dessa vez quero mostrar um dos momentos mais "trágicos" da viagem até agora que foi... subir trës andares de escadas bastante estreitas com todo nosso equipamento no hotel em que estamos hospedados em Sydney... Ave!! Levem-me de volta para os cangurus!! Já comentei que todo nosso equipamente pesa aproximadamente 120 quilos?? Agora imagine subindo essas escadas... E isso eram umas 8h da manhã... Atenção, hein!! Isso não é uma reclamação, é só um fato - mais um! - da nossa viagem que (VIVA!) já tá completando um mês. Estamos quase acabando as operações por hoje, e o sol está rachando nas ruas de Sydney, ainda que a temperatura não ultrapasse os 10 graus centígrados... Depois de uma semana prá lá de puxada (sério, a etapa da Tasmânia foi a mais puxada até agora) acho que nós merecemos um passeio pelas marinas da cidade - aquele "cartão postal" de Sydney com a ópera ao fundo... Acho até que vou aproveitar para visitar a Bienal de Sydney, que abriu ontem - quem sabe não é um bom aquecimento para a de São Paulo que vai abrir em outubro? Posso ir dar uma volta? Não acredita que a gente tá "ralando" mesmo? Então aqui vai mais uma fotinho (assim que a gente chegar em Cingapura eu mando!) pra te convencer: esse é o "estúdio" improvisado que nós montamos no banco de trás do carro do Marcos (o brasileiro que encontramos em Hobart): pra ganhar tempo, enquanto voltávamos da prosão de Port Arthur, eu ia no banco da frente fazendo o texto e o Guilherme no de trás na operação!! E tem gente que a gente ainda acha que estamos de férias... Conto da Bienal no próximo boletim, depois que eu souber pra onde você vai mandar a gente esta semana...

Mundo, Sexta-feira, Junho 11, 2004
Para os amantes da cozinha étnica...

...não existe nada disso aqui na Tasmânia - e olha que eu procurei... Como toda a ex-colônia inglesa, as influências nesses traços que seriam típicos, foi total. Assim, é mais fácil encontrar tasmanianos que falam que o prato típico do lugar é uma boa carne assada com batata - ou então qualquer coisa preparada com frutos do mar, do que uma receita aborígena... E como eu sei disso? Porque eu acabo de chegar de um jantar na casa de uma tasmaniana - e perguntei pra ela! KIim é casada com o Marcos, um brasileiro que encontramos por aqui, que trabalha na Universidade da Tasmânia, coordenando os estudos de brasileiros que queiram vir pra cá pra estudar. Enfim, ele que foi meu guia (ou melhor, que vai ser o seu guia no domingo) na nossa visita à prisão de Port Arthur - um lugar de dar calafrios (e isso não é só uma "muleta" de linguagem... é impressionante mesmo, e olha que eu visitei as ruínas de dia e com muito sol - apesar do frio... só de pensar o que seria esse lugar há mais de cem anos...). E foi ele que organizou um encontro nosso com a numerosa comunidade brasileira em Hobart - mais ou menos umas 15 pessoas. Mas quem disse que menos é "menos"? Foi um jantar maravilhoso e Kim e Marcos, já que não puderam oferecer a típica cozinha tasmaniana (simplesmente porque ela não existe!), fizeram bonito e abriram uma garrafa de vinho espumante local. Estamos nos despedindo de Hobart (porque segunda-feira é um feriado, não consegui passagem para voltar pra Sydney no domingo nem na segunda nem no domingo - e a gente tem de estar em Sydney no começo da semana pra sair... sei lá pra onde!! Mas, foi por isso que nossa estadia nesse paraíso acabou sendo curtinha...) - e nada como sair de um lugar com um belo brinde!! Só tenho o que agradecer a essa tão carinhosa comunidade que recebeu a gente aqui (também tenho de agradecer a essa cara do cybercafe que nos abriu uma conexão poderosa pra mandar os arquivos de imagem com uma velocidade absurda pro Brasil; o nome dele é Johnathan - mas não vamos misturar negócios com prazer; já falamos demais de bastidores, quando estiver em Sydney, volto a falar dessa festa de hoje, que teve até - acredite! - pão de queijo - o melhor da Tasmânia!!!).

Mundo, Quinta-feira, Junho 10, 2004
Eu falei 48 horas??

Bem, 48 horas (o tempo que eu falei que ia demorar pro próximo boletim) foi o que a gente levou pra chegar aqui em Hobart - Tasmânia. Daí, ainda precisamos de quase mais dois dias para ter tempo e sentar aqui pra escrever esse boletim. Claro que eu gastei um pouco desse tempo fazendo novos amigos (veja a foto!!). Mas o resto foi a correria pra chegar aqui. Vou passar rapidinho pelas etapas: de Queenstown pra Auckland, tudo bem. Mas ao sair da Nova Zelândia, nosso vôo foi cancelado - problemas técnicos! Perdemos então quatro horas no Aeroporto de Auckland esperando um novo avião. Chegamos em Sydney meio "acabados"... Dormimos diretos, até porque nosso vôo para a Tasmânia era cedo. Mas não é assim, um vôo pra Tasmânia e pronto... Tem que passar antes por uma escala em Melbourne, mais ao sul de Sydney. Daí, a conexão para Hobart, a capital da Tasmânia demorou "só" mais quatro horas... Bem, mas aqui estamos - e... Bem, sabe o que parece? Uma cidade do interior da Inglaterra! Eu também (digo também porque imagino que essa seja a idéia que você tem também da Tasmânia) pensava que a cidade seria mais... rústica. Mais... selvagem... Bem, é uma antiga cidade colonial inglesa - até meio sem personalidade. Bonita, mas ao mesmo tempo muito urbana, com um centrinho com praça de alimentação (sim, com cadeias de "fast-food") e lojas de roupas... Mas onde está aquela natureza selvagem? Ah... pra isso você yem que dar uma viajada - llteralmente! Você vai ver isso na matéria, mas para chegar até os cangurus, foi uma horinha de viagem. Valeu a pena - e não só por causa desses meus "amigos". O mais estranho mesmo foi ter conhecido o demônio da Tasmânia!!! Pensou que ele estivesse extinto? Será que você não está confundindo com o Tigre da Tasmânia (que aliás, nem era um tigre...)? E o Wombat? Não conhece? Hi... então você tem mais de um motivo pra ver a matéria de domingo...

Mundo, Segunda-feira, Junho 07, 2004
Onde isso vai parar??

Bem, estou me perguntando isso desde o dia 16 de maio passado... E dessa vez a gente vai longe demais!! Tasmania nao te soa como um daqueles lugares perto do fim do mundo? Bem... Na verdade a gente vai estar bem proximo disso mesmo. Mas, depois daqueles 175 metros, encaro qualquer coisa - ateh o tal demonio que diz que vive por lah!! Esse trajeto eh complicado, entao... esse blog entra em recesso por 48 horas!! (mas passa rapido, nao se preocupe!!)


Mundo, Sábado, Junho 05, 2004
175

Bem, a última vez que coloquei um número no título acima, eu estava referindo ao meu peso. Mas, calma. Não engordei 76 quilos em menos de dois dias!! Desta vez, os 175 lá de cima definem a altura da qual eu saltei ontem. Eu sei, eu sei, eu deveria ter escrito ontem, logo em seguida da emoção, pra registrar tudo fresquinho... Mas não deu. É muita coisa - e eu estava literalmente me recuperando. Tá achando que é frescura? Bem, vou contar um pouco, quem sabe você me entenda. Vamos começar esclarecendo que é o salto mais alto de Bungy Jump que existe no mundo, segundo os neozeolandeses. O próprio salto sobre o rio Nevis, famoso por aqui, tem ":só" 134 metros... Mas pra aumentar esse desafio, eles tiveram de se superar com uma nova abordagem do bungy: eles acrescentaram um pára-quedas à equação. Assim: primeiro você sai num barco, rumo ao meio do lago Wakatipu (que já é uma maravilha!); quando eles acham um canto onde o vento está presente, mas não muito forte, você é convidado a sentar numa cadeirinha que está presa no pára-quedas - a essa atura, já aberto; então, você começa a subir... e subir... e o lago vai ficando lá em baixo... Descrito assim, parece frio, mas frio mesmo estava todo o meu corpo - congelado!! O que quebrava o gelo era a vista espetacular (ontem nevou bastante aqui em Queenstown e depois saiu o sol... dá pra imaginar a beleza do cenário?). Só que quando eu olhava pra baixo, era aquela aflição... pra mim já estava alto o suficiente, mas quando eu resolvi perguntar, estávamos "apenas" a 50 metros da superfície - mais 100 metros nos esperavam, pra cima Engraçado como aquela vontade de desistir, que toma conta da gente num bungy normal, aqui estava ausente. Quanto mais alto, mais vontade eu tinha de chegar logo a hora de saltar - talvez um disfarce para o meu nervosismo... Tinha a sensação de que havíamos ultrapassado os 150 metros da proposta inicial (e acabamos ultrapassando mesmo, como eu confirmei qujando recebi meu certificado de um salto a 175 metros de altura!!!). Só que chega uma hora que você não tá nem ligando mais... Só sei que quando o meu instrutor começou a contagem regressiva, eu já estava tão entusiasmado, que não pensei duas vezes: saltei da cadeira e... voei! Esse é o verbo: voar... Ao contrário dos outros bungys, onde você sente uma força bem vertical te puxando, a gravidade aqui parecia brincar com o seu corpo . A sensação era a de que você estava caindo para todos os lados... Até pra cima! Era como se eu estivesse planando, e não mergulhando. Foi o máximo (VOCÊ TEM DE VER A IMAGEM ESTE DOMINGO PRA ENTENDER MELHOR O QUE EU TÔ FALANDO!!). Como eu estava o tempo todo com o microfone ligado, fui ver a fita depois e percebi que falei um monte de coisa sem sentido... Não sei nem explicar: eram coisas que ia saindo, tentando descrever o que estava acontecendo... Mas o mais legal (e verdadeiro) que saiu foi: "eu nunca fiz uma coisa tão legal na minha vida!". E foi mesmo. Foi disparado a aventura mais incrível que eu fiz pro Fantástico... Uma bela despedida de Queenstown (quer dizer, ainda teríamos algumas despedidas, como a pizza com a turma que ajudou a gente na transmissão, o encontro com nossos produtores de esporte radicaios por aqui, o Ruy e o Índio; mas pra "fechar a aventura", o Para Bungy não poderia ter sido melhor!).
Como sempre, eu não sei para onde você vai mandar a gente neste domingo... Mas vou lançar um desafio (pra mim mesmo): seja na próxima parada - ou nas outras escalas - que ver se consigo achar alguma coisa que supere essa experiência!!


Mundo, Sexta-feira, Junho 04, 2004
Quer um pouco dos bastidores?

Não sei se já fiz esse "desabafo", mas o que dá mais trabalho nas nossas jornadas é justamente mandar as imagens para as reportagens que vão ao ar. Os detalhes da operação são complicados demais para descrever aqui, mas vamos simplificar: primeiro exportamos a imagem da câmera para o computador; depois selecionamos o que vamos mandar; daí, as imagens selecionadas precisam ser comprimidas; então os arquivos estão prontos para ser enviados. Parece simples. Só que leva horas... Para cada minuto de material que mandamos, esperamos em média 20 minutos. Tá a fim de fazer conta? Até agora, temos mandado, em média 45 minutos de material para o Brasil (na Nova Zelândia, algo me diz que vai ser mais...). Multiplicou? Então você já tem uma idéia do tempo que a gente passa fazendo isso. Como adiantei, o material da Nova Zelândia é riquíssimo. Não daria tempo de gravar tudo e ficar "preso" num cybercafé mandando tudo. Eis que entram em cena... as nossas novas assistentes, Mariana e Helena! Na verdade, nosso "grupo de suporte" é ainda maior: uma galera de várias partes do Brasil que está aqui fazendo equivalente ao ensino médio, numa espécie de intercâmbio. Encontramos com eles justamente no cybercafé e... já recrutamos! Hoje, enquanto eu estava lá no Bungy Jump (me divertindo, você já pensou... sem lembrar do meu sofrimento - leia texto anterior), quem ficou mandando o material foi justamente a Mariana e a Helena. Toda a turma passou por aqui, claro (Bruno, Natália... são tantos!). Mas, pra não ficar sem crédito, parte do que vai ao ar no próximo Fantástico passou por elas. E me faltam palavras pra agradecer. Me faltam também algumas horas de sono e, agora que nossos "assistentes" já foram para suas casas, a perspectiva de ficar pelo menos mais duas horas e meia aqui (o cybercafé fecha à meia-noite) aqui me deixa exausto... Ou será que é um efeito meio retardado do salto de hoje?...

99

Está escrito aqui na minha mão. Com caneta vermelha: 99. Ao escrever isso no teclado, sou obrigado a olhar para esse número. É meu peso hoje - em quilos. E está escrito na minha mão pois se não fosse assim, eu não teria saltado de bungy jump aqui em Queestown. Antes dos protestos quanto à grafia do esporte radical, pode ser uma aliteração, adaptação, ou pura preguiça da moçada que pratica; mas todos os cartazes que indicam a atividade por aqui escrevem assim. Estou tentando disfarçar, dando voltas para falar da sensação do bungy jump - que, aliás, nem é nova pra mim. Mas vamos lá! Foi o máximo. Foi certamente melhor do que o surf.... E, com a duração de apenas alguns segundos - uns três, pra ser exato - tremendamente mais eficiente que meu último esforço nos esportes alternativos. Para se ter uma idéia da desorientação que é olhar o rio Kawarau do alto da ponte, eu tinha preparado um texto pra dizer antes do salto. Era mais ou menos assim: "Imagine que eu estou justamente no ponto onde um cara, há quase 20 anos, achou que dava para explorar isso como esporte e inventou o primeiro bungy jump... E agora, o Fantástico vai reproduzir esse momento emocionante... ". E quem disse que esse texto saiu na hora do pulo. O som expresso pelas minhas cordas vocais estava mais próximo de um grito de puro horror. Se eu gostei? Digamos que foi o ponto alto da viagem até agora - e isso não é só um jogo infame de palavras... A emoção inteira, claro, (e o que aconteceu com os 99 quilos precipício abaixo) você vai ver no domingo!

Mundo, Quarta-feira, Junho 02, 2004
Voce viu o dia 01 de junho de 2004 por ai?

Bem... como dizer isso...estah faltando um dia na minha vida!! Sem dramas, nao se preocupe. Mas eu queria deixar claro que eu saih do Havai aas 23h55 do dia 31 de maio, peguei no sono, voei por nove horas e acordei aas 7h15 da manha na Nova Zelandia - NO DIA 02 DE JUNHO!! Esse eh um assunto que eu adoro, mas eh dificil de entender (tambem eh dificil de explicar mas vou tentar). Eh que nos cruzamos a linha do tempo, que fica bem no Oceano Pacifico. Independente de ser dia ou noite, cruzou, voce muda de dia. Se alguem jah passou os olhos no genial "A Ilha do Dia Anterior", de Umberto Eco, jah sabe do que eu estou falando. Eh uma sensacao estranha: voce estah voando, num dia e, dali a alguns quilometros, voce jah virou o calendario. Tudo aih no Brasil continua normal, ninguem pula o relogio, ninguem muda a rotina... Mas eu deixei de viver um dia. E, como estamos indo sempre na direcao oeste, nao vai dar nem para recuperar (quem jah viajou, por exemplo para o Japao e voltou pela mesma rota, jah teve a chance de "perder" o dia e depois "recupera-lo" na volta (apesar de a sensacao de sair num dia, viajar quase 24 horas e chegar no mesmo dia tambem eh meio esquisita...). Mas nao estou aqui pra reclamar nao, pois estou em Queesnstwon, na ilha do Sul da Nova Zelandia - um dos lugares mais lindos do mundo (e acho que eu posso ter uma opiniao "bem-fundamentada" sobre isso...). E olha que eu estou falando praticamente de alguns minutos que eu pude apreciar as redondezas. Com essa viagem maluca (nao sem escalas, claro), acabei chegando muito no fim da tarde aqui. Como eh inverno (sabe quantos graus faz agora lah fora? Nove! Isso eh que eh choque termico!!), escureceu muito cedo. Aih, vim para o meu ritual semanal de checar os emails (e responde-los, claro) e, em seguida escrever alguma coisa aqui. Devo estar parecendo meio deslumbrado, ne... Imagine amanha...