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Mundo, Sexta-feira, Julho 30, 2004
E agora, as última notícias... Não que meu romeno esteja afiado. Na verdade, não estou sequer arranhando a língua (apesar de proximidades curiosas com o português - sabia que o romeno também vem do latim?). Mas, voltando da Transilvânia, hoje, no fim da tarde, ouvi no rádio do carro, algo que parecia juntar as palavras, "atentado", "Tashkent" e "Uzbequistão". Bem, passeio bem perto das duas últimas - e aparentemente, segundo nosso motorista, escapei por pouco de estar perto da primeira. Assim que abri o email, uma mensagem do meu irmão me confirmou que houve sim um atentado a bomba hoje na capital do Uzbequistão... Faz a gente pensar... Aliás, não é só as notícias que a gente ouve no carro que fazem a gente pensar: a música também. Assim que cheguei aqui, no táxi, estava tocando uma das minhas músicas bregas favoritas de todos os tempos: "I'll never be (Maria Magdalena)", por Sandra. Não conhece? Não sabe o que está perdendo. No mesmo dia, entrei no carro do amigo romeno que nos mostrou Bucareste, Cornel, e estava tocando Joy Division (alerta para os menores de 20 anos: banda seminal do final dos anos 70, começo dos 80, que, pra resumir bem, deu origem ao New Order - será que essa mesma faixa etária reconhece o New Order??). E hoje, logo antes da notícia do atentado, nosso motorista estava com uma fita do Gypsy Kings a todo vapor... O que mais posso esperar da Romênia? Bem, uma boa conexão de internet não seria mal... Estamos penando aqui para encontrar uma - e nosso limite é amanhã, sábado... Já estou puxando a oração, mas tá difícil... Será a maldição de Drácula? Será que não deveríamos ter ido ao castelo em Bran - que diz que foi construído por ele, mas não foi? (aliás, as histórias que ligam o Drácula, vampiro, ao cruel príncipe Vlad Tepes são tão nebulosas que fica difícil de acreditar que os dois têm alguma coisa a ver...). Será que eu não deveria nem estar falando dele? Quem sabe eu deveria me concentrar no outro castelo que visitamos, Pelesh (aqui eles escrevem esse nome com com um "s" que leva uma cedilha - um barreira instranponível para esse teclado de onde escrevo - mas o som é de "c")? Ou deveria escrever só sobre o charme medieval da outra cidade que visitamos na Transilvânia, Brashov? (respectivamente, primeira e segunda fotos que estão ao lado; a lá de cima, claro, é no castelo do Drácula, digo, de Bran...). Bem, isso tudo você vai ver no domingo. Vou só resumir dizendo que essa região é maravilhosa. Depois de ver tantos cenários diferentes nessa viagem, de desertos à palácios, de selva tropical a templo budista, as ruas carregadas de atmosfera medieval que visitamos me pareceram uma grande novidade... Não é a primeira vez que visito uma cidade assim. Mas a velocidade com que as coisas acontecem nessa viagem comprime minha memória, e as experiências, mesmo já vividas há um bom tempo, acabam parecendo novas. Estou filosofando demais? Será que é mesmo a maldição do príncipe Vlad? Bem, vou voltar com os pés no chão e dormir feliz lembrando que escapamos da bomba em Tashkent...
Barraco forte É assim que se pode chamar, carinhosamente, o Palácio do Parlamento de Bucareste - essa foto que você viu na página do Fantástico, antes de entrar aqui no blog. Bem, pra contar rapidinho, antes de sairmos para uma viagem de carro para a Transilvânia (o nome lhe diz alguma coisa? Príncipe Vlad, ajuda? então vamos fazer um suspense...), chegamos só na quarta-feira à noite na capital da Romênia. E, como sempre, a sorte nos ajudou para conhecer pessoas que nos ajudassem por aqui. Na mesma noite, a Andreia, que trabalha na embaixada brasileira, já estava nos apresentando para um pessoa daqui, gente ótima (como a Masha e o Cornel - que nos levou para um passeio na cidade). E assim pudemos ter uma brevíssima introdução à cidade que (e qualquer romeno vai te dizer isso com orgulho), já foi conhecida como a Paris da Europa do Leste. Bem, claro que isso foi no período entre as duas Guerras Mundiais no século 20... e depois vieram os russos, depois veio Ceaucescu (um dos piores ditadores da história) e... bem, vamos dizer apenas que Bucareste mudou muito. Charme a cidade ainda tem. Mas quando se visita uma monstruosidade como esse palácio, dá até uma certa tristeza... Quer alguns dados curiosos? Só perde para o Pentágono (nos EUA) no título de maior prédio do mundo; foi construído à custa do trabalho de mais de 20 mil operários trabalhando sem parar durante 5 anos; doze igrejas (e mais de 5 mil casas) foram derrubadas para que sua construção fosse possível... e por aí vai... Mundo, Terça-feira, Julho 27, 2004 PECTOPAH Ou, se você preferir, restaurante. Viu? Uma semaninha no Uzbequistão e eu já to craque em ler russo - e até sacar algumas coisas. Já dá pra ajudar a circular aqui por Kiev. Não, Kiev, não é na Romênia. Nós ainda não chegamos lá. Estamos apenas em mais uma escala em busca de mais um visto. É muito complicado pra explicar... mas, só pra te dar uma idéia, a gente não saiu do Brasil com todos os vistos no passaporte. Alguns países eram bastante difíceis de serem contactados - ou então os prazos necessários para a liberação de vistos não batiam com nossa data de saída do Brasil. Enfim, basta dizer aqui que a Romênia era um desses casos. O que ficou acertado então? Que a gente pegaria esse visto na Ucrânia. E, pronto (como dizem em Portugal!): cá estamos nós fazendo mais uma escala. Relâmpago - é verdade. Tanto que não vai dar pra mostrar quase nada, no domingo, dessa cidade lindíssima. Fizemos apenas um "tour" rápido à convite da embaixada brasileira daqui, onde aliás... encontramos ninguém menos que a nossa equipe de ginástica olímpica se preparando aqui pra ir pra Grécia. Daiane, Daniele e toda a turma guiadas pela treinadora Irina - que, diga-se, é ucraniana! Foi uma bela quebrada de rotina. Foi legal saber que elas conseguiram assistir algumas das etapas da nossa volta ao mundo no Fantástico. Sem falar na emoção de encontrar as meninas que vão defender nossa bandeira daqui a apenas alguns dias nas Olimpíadas! Com visto na mão, fizemos um passeio lindíssimo nessa cidade - aliás, reforçando, uma cidade que deixou a gente encantado. Só não vou me alongar nos elogios, pra não parecer pirraça... tipo: "Tá vendo? Porque vocês não escolheram a Ucrânia no lugar da Romênia..." Mas essas fotos que eu separei já dão uma idéia do que foi essa escala em Kiev. Sem falar que agora eu até já sei escrever "restaurante" em russo. Aliás, só pra você entender, o "R" é "P"; o "S" é "C"; o "H" é "N"; e tem mais um monte de letras que nosso teclado "careta" nem sonha... o "F" então... Mas deixa isso pra lá. Vamos nos concentrar no romeno, que é o que a gente vai encarar a partir de amanhã - e que é até muito parecido com o português, sabia? "La revedere"!!! (tem um dicionário romeno-português aí à mão?)
Mundo, Domingo, Julho 25, 2004 Lilya 4-Ever Esse é o título de um dos últimos filmes que eu vi antes de sair pra essa volta ao mundo (vi em DVD importado porque, apesar de o filme anterior do diretor sueco Lukas Moodysson ter tido uma bela recepção no Brasil - você assisistiu "Bem-vindos"? - e o próprio "Lilya" ter sido um sucesso internacional de crítica, ele ainda não foi lançado no Brasil; talvez o problema seja a expressão "sucesso internacional de crítica"...). É devastador. Numa brevíssima linha, é a história de uma adolescente que é abandonada pela mãe numa pequena cidade do interior da Rússia (a mãe vai pros EUA com um cara que arrumou numa agência - e não dá mais notícias), Lilya amarga por semanas até cair no conto de um namorado que quer levá-la pra Suécia, na verdade, um golpe para que ela se transforme numa espécie de escrava branca (do sexo, claro) numa outra cidade do interior - só que sueca. É muito triste. Muito. Bem, hoje saí para passear em Tashkent, despedir da cidade. E me lembrei do filme. Eu adorei o Uzbequistão. Sério. Está nos textos anteriores, você pode conferir. Mas tem alguma coisa, alguma coisa que eu não sei definir, que está nas pessoas que você encontra na calçada, que está nas janelas que se fecham quando você passa, até nas portas do metrô que, num movimento fantasmagórico, abrem e fecham sozinhas, com o vento do trem que passa lá embaixo - tem alguma coisa, que me fez lembrar desse filme... Vou digerir até a próxima escala, depois comento. Por falar nisso... onde vai ser a próxima escala mesmo??
Mundo, Sábado, Julho 24, 2004 Uzbek kabrotchkaya! Viva o Carnaval do Uzbequistão!! Como assim?? Foi o que eu também me perguntei! Quem soube primeiro e deu a notícia foi a Fabiana, uma paulistana ultra-simpática que encontramos por aqui - sim, uma brasileira no Uzbequistão... Seu marido, americano, trabalha com construção civil e ela chegou aqui há apenas duas semanas. Estava quase tão perdida quanto a gente, mas foi bom porque um ajudou o outro. Fizemos um passeio maravilhoso na cidade - que eu já conto. Mas antes, o Carnaval, ou melhor, a noite mais surreal que já experimentamos até agora... Fabiana me manda um email na quinta-feira à tarde, perguntando se eu sabia que ia rolar uma festa dessas. Não acreditei, é claro. Aliás, acreditei menos ainda quando descobri que a festa era no próprio hotel onde estamos hospedados. Saí perguntando, mas ninguém sabia me dizer se a festa contaria com músicos brasileiros, música brasileira - na verdade, ninguém sabia me dizer nem se ia ter samba. Quando perguntei se as balarinas (prometidas no convite) eram brasileiras, ouvi um "probably russian" ("provavelmente russas") como resposta. Imediatamente coloquei minhas expectativas nas alturas... E não me decepcionei. Não com a batucada, claro. Nada que passou pela piscina do hotel (o lugar da festa) parecia de longe um samba - era só música eletrônica com uma leve pitada de ritmos latinos (leia-se, "mambo"). Mas o mais legal é que todo o espetáculo acabou proporcionando momentos de pura diversão. Meio desajeitados, mas sem perder a animação, o público ia entrando na pista e ensaiando o que poderia ser a terceira aula de um curso chamado "Samba para Principiantes", sendo que quase todos tinham faltado nas duas primeiras aulas. E quando entraram as cabrochas então... Bem, chamá-las de cabrochas é estender a definição do termo a um nível quase abstrato! Se estar vestida com plumas e biquini sumário qualifica alguém como cabrocha, então elas passaram no teste. Mas quase pegam recuperação! Com elas porém, a turma começou a se animar... e as cabrochas começaram a evoluir... Alguns mais animados foram pulando na piscina. As meninas começaram a subir em cima das mesas. E houve um momento em que achei que estavam criando o clima para uma daquelas publicações de fotos que a gente vê nas bancas na quarta-feira de cinzas, com a chamada de capa "Edição Especial de Carnaval", e cheia de imagens ousadas... Duas da manhã e a festa entrou para o salão de conveções do hotel - e aí já não dava mesmo pra chamar de Carnaval. Era rave! Ponto alto: a pista de dança lotada de Ludmilas, Natashas, Sashas, Sandozs, e outros nomes que eu ainda não absorvi, dançando "Milkshake (Uzbek Remix)", de Kelly... Nossa, como eu tava precisando de uma festa... E que festa (você vai ver amanhã!!). Quase me acabei - e isso porque teoricamente eu estava cansado... Passamos o dia passeando por Tashkent, com a Fabiana, lembra? Visitamos uma igreja cristã ortodoxa, comemos mais alguns kebabs na rua, assistimos "Mulheres Apaixonadas" (!) dublado em russo - e fomos até a um bazar ao ar livre, onde enlouquecemos com as comidas - e eu não poderia sair de lá sem comprar um desses pães deliciosos daqui... Quem diria que, justo aqui, a gente teria uma das etapas mais divertidas dessa Fantástica Volta ao Mundo? Mais uma vez, viva o Carnaval do Uzbequistão. E viva as "kabrotchkayas"!!
Mundo, Sexta-feira, Julho 23, 2004 Não dá pra descrever... Não é de hoje que meus amigos brincam comigo que o maior clichê que eu posso usar numa matéria é a expressão acima... Bem, dizem eles, se você é jornalista, é melhor arrumar, de algum jeito alguma maneira de descrever o que você está vendo. É seu trabalho, não é? Aceito. Mas aí você chega em Samarkand, Uzbequistão... E a primeira frase que me vem à cabeça... adivinha? Bem, só pra contrariar meus amigos, vou tentar descrever o que é considerada por muitos um dos monumentos mais lindos do mundo... Um festival de mosaicos. Duas antigas "medressas" (escolas onde os meninos eram educados nos ensinamentos do Islam), e uma mesquita. Uma praça exuberante. Uma viagem no tempo. Um passeio por um cenário antigo, cheio de mistérios. Um show de imponência, cores (azul e verde, principalmente), e desenhos. Um testamento de uma cidade que já foi das mais ricas, na época em que Samarkand ficava no coração da rota da seda... Não dá! Todas essas descrições parecem, ou melhor, são sofríveis - e nenhuma chega perto do que é a sensação de passear no local. Vou tentar uma abordagem então... "mais livre". É o seguinte: eu já estive em muito lugar nesse mundo - não só nessa Fantástica Volta ao Mundo, mas numas escapadas também de férias. E eu nunca vi nada que tivesse um impacto tão grande nos olhos quanto esses monumentos de Samarkand. Malika, minha guia muçulmana que mora na cidade, insistia em contar as histórias da construção (séculos 14 e 15) e restauração (século 20) dos prédios. Mas minha atenção se sustentava por cerca de 40 segundos a cada vez que ela recomeçava... Logo qualquer concentração ia embora e era como se meus olhos quisessem gritar: "É maravilhoso! É gigantesco! É impressionante!! É o máximo!!!!!!!". Aliás, eu acho até que eles gritaram isso. Mas nem assim acho que eu consegui passar o que foi essa visita ¿ que, aliás, me fez esquecer as cinco horas de viagem para chegar lá ¿ e as outras cinco horas que eu iria enfrentar na volta... Bem, eu tentei descrever... Mais que isso... só se eu trouxesse você aqui... Vou tentar então levar um pouco disso aqui pra você nesse domingo. Mas já vou avisando, quer dizer, já vou desafiando: será que você vai conseguir descrever o que seus olhos vão ver?
Mundo, Quinta-feira, Julho 22, 2004 Saudações de Bóston! Levou um susto? Então imagine o meu ao deparar com essa placa no caminho de Tashkent para Samarkand. A única cidade que eu conhecia com esse nome até ontem fica no estado americano de Massachusetts... Não deixa de ser uma ironia encontrar um lugar assim num país que antes pertencia à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (atenção você com menos de 20 anos: antes, o que hoje é a Rússia, dominava um território ainda maior que compreendia inclusive o Uzbequistão; mas isso era antes do colapso do comunismo, fim da guerra fria, coisas muito complicadas pra explicar aqui, e que eu espero - repetindo, espero - que os currículos básicos de história geral já estejam ensinando... quando eu estudei História no colégio, o muro de Berlim ainda estava de pé... mas eu divago...). Essa, claro, não foi a única surpresa dessa viagem de carro. Sim, mais uma viagem de carro, daquelas que a previsão de duração é geralmente 40% do tempo que ela realmente leva (por que será que as pessoas nuncam contam pra gente o quanto vai levar - de verdade?? Ao contratarmos um carro, seja na Índia, Sri Lanka, Uzbequistão, ouvimos sempre: "até onde você quer chegar são só duas horas e meia, no máximo três, conforme o trânsito. No final, é sempre um pouquinho mais que o dobro...). Mas, mesmo longa, não deu pra reclamar de falta de diversão na viagem (o caminho de volta, claro, foi bem mais aborrecido...). A começar pelo café da manhã, de beira de estrada (mais precisamente, de beira de estrada no Uzbekistão), que incluia chá, pão e... kebab! O que é kebab? Um espetinho, que em alguns lugares de comida árabe no Brasil encontramos com o nome de kafta. É um bolinho de carne moída amassada e enfiada no espeto que vai direto pra uma churrasqueira - aqui, geralmente improvisada. O favorito dos Uzbeks (e que nós, como dedicados turistas, não recusamos) é o de carne de carneiro. Especialmente recomendado para às 8h30 da manhã! A sorte é que mais adiante, dezenas de mulheres vendiam lindos baldes repletos de maçãs - maçãs, diga-se, bem pequenas, quase do tamanho de uma ameixinha, mas extremamente doces - e isso deu uma balanceada na nossa dieta. Nosso motorista, cujo nome eu sequer consegui absorver, tentava conversar. Eu me esforçava em responder. Mas nada ia adiante. Nossos diálogos obedeciam uma curiosa evolução: perguntas elaboradas em inglês eram imediatamente abandonadas e a estrutura das frases era reduzida ao mínimo - artigos e preposições, totalmente ignorados; em seguida, os verbos tinham o mesmo destino. As respostam vinham num esboço de inglês com pesado sotaque russo. Então, eu ia "limpando" as frases, até que tudo que eu gostaria de dizer pudesse ser resumido a um remendo de três (às vezes dois) substantivos concatenados. Mas nem assim... Dali pra frente, as respostas chegavam em russo fluente, com fragmentos possívelmente identificáveis em inglês ("móni", "trim", "big", "goody"). Nada disso, porém, o impedia de ser talvez o nosso condutor mais simpático que encontramos nessa viagem. No almoço então - repleto de... kebabs! - a "conversa" rolou solta... E assim passavam as horas... A paisagem, que começou com campos e mais campos de algodão, logo ficou mais próxima do deserto, e só quando cruzamos algumas montanhas (só reforçando, o visual é muito bonito mesmo), voltamos a ver algum verdinho - e com flores! Era um bom presságio: estávamos perto de um dos lugares mais lindos do mundo. A essa altura você já deve ter se acostumado aos exageros desse blog... Mas dessa vez é sério. Eu já tinha ouvido falar de Samarkand (amigos, reportagens em revistas), e os comentários eram sempre superlativos. Até que eu cheguei lá e percebi que tudo que tinham me contado era pouco - pouquíssimo - se comparado ao que encontramos por lá. Acho que vou fazer um suspense...
Co = Tr + Te Quando o relógio (ou talvez mesmo o calendário) já tiver avançado o suficiente para justificar a famosa equação: "Comédia é igual a Tragédia mais Tempo", me lembre de escrever um texto chamado "O que as outras companhias aéreas devem aprender com a Uzbekistan Airlines". Agora ainda tá muito cedo... Mundo, Segunda-feira, Julho 19, 2004 Fazendo o peao O "peao" do titulo tem um til. O que nao tem til eh esse teclado que estou usando... E se voce nao conhece a expressao "fazer o peao", vah perguntar para a Tia Ordelia, que foi ela quem me ensinou! Eh uma tia muito querida (serio), e eu me lembrei dela - e da sua expressao - quando me vi hoje novamente aas voltas com a confusao urbana de Nova Delhi. "Fazer o peao" significa usar uma cidade como base enquanto voce viaja para outras ao seu redor. Foi isso, por exemplo, que fizemos em Bangkok (de onde circulamos para o Camboja, Filipinas e Nepal). Nas duas ultimas semanas, foi a vez de Delhi... Ai... Tudo aqui eh muuuuito mais complicado do que voce possa imaginar. Sabe quando voce reclama porque falta um carimbinho pra um documento que voce estah ha dias correndo atras? Multiplica isso por 140! Vou tentar ilustrar uma cena que envolve os 50 minutos que esperamos para tirar um dinheiro do Bank of India (dinheiro esse, para pagar a passagem para o Uzbequistao - mas, jah chego lah...). Numa sala de, no maximo, 12 metros quadrados trabalham oito pessoas. Cada uma tem sua mesa. E seu lanchinho. Um funcionario circula quase intermitentemente com uma bandeja onde vai trocando as xicaras de cha. Pacotes de biscoito circulam com certa reserva - nem todo mundo oferece pra todo mundo. No teto, quatro ventiladores, mas dizer que eles estao refrescando o ambiente eh querer que radio de pilha anime a plateia de uma rave... O unico consolo refrescante da sala eh o papel de parede de um computador, com uma imagem de um vale nevado (nao eh a primeira vez que eu reparo que imagens de neve ilustram telas de coputador - serah psicologico? Estamos eu e o Guilherme (o Tuli, aquele meu amigo indiano, saiu aas ruas para tirar uma copia do meu passaporte - ha 25 minutos! Deve estar tendo alguma dificuldade...) esperando essa copia, para que a setima pessoa que assinou o formulario de retirada (com cartao de credito) possa enfim me dar o dinheiro. Eh incrivel! O que poderia ser resolvido em questao de segundos num caixa automatico, em Delhi ganha um ritmo estagnante... E por que estamos tirando dinheiro no banco? Porque as linhas aereas do Uzbequistao soh aceitam dinheiro! Alias, nao sao nem as linhas aereas, mas a agencia de viagem (numa "inovadora" inversao de papeis, eh a primeira vez que eu vejo um escritorio de uma companhia aerea pedir para a passagem ser comprada atraves de uma agencia - e nao diretamente com eles...). Enfim, Tuli chega, a ultima assinatura estampa o formulario e entao eh soh se dirigir ao caixa... Teria sido soh alguns minutinhos a mais, se a pessoa responsavel nao tivesse (mais uma vez) me confundido com um indiano e me pedido informacoes extras (mais?) em hindi... Na conta final, toda a operacao (passegm + dinheiro) demorou 2 horas e 35 minutos. Isso eh o que eu chamo de fazer o peao... Claro que, logo depois disso, fomos num restaurante maravilhoso de comida do sul da India (onde pagamos menos de 15 reais por um banquete) e ainda passei numa loja de CDs pra conferir os remixes mais enlouquecidos da temporada (nao eh aa toa que os melhores produtores do pop americano agora fazem uma ponte direto com DJs indianos para procurar "novas" batidas - que o diga Missy Elliot...). As coisas boas de Delhi ainda estao aih pra quem quiser aproveitar... Mas os obstaculos que voce tem de enfrentar para simples tarefas do dia a dia te fazem perguntar: como as pessoas que vivem aqui conseguem trabalhar...? Hora de ir logo pro Uzbequistao!! Uz-be-kilugarehessemesmo? Confessa! Até o Fantastico desse domingo, quantas vezes voc tinha pronunciado o nome do nosso próximo destino? Talvez você tenha alguma lembrança desse nome porque parece um dos territórios daquele jogo de tabuleiro, "War" (desde adolescente eu tenho meu lugar favorito no mundo, Vladivostok, graças ao "War" - quem sabe, um dia, ainda não vou pra lá...). Mas não importa, porque a gente tá indo pra lá, justamente pra fazer você conhecer essa parte do mundo... Com isso estamos saindo aos poucos da Ásia, não sem uma boa dose de saudades. Se essa Fantástica volta ao Mundo tinha um destino dos mais misteriosos (tudo bem, eu também confesso: eu mesmo pronunciei esse nome pouquíssimas vezes na minha vida - e menos vezes ainda sem que a minha língua enrolasse...), esse destino era o Uzbequistão. Se estou pronto pra desvendá-lo? Prontíssimo!!! Vamos ver quando a gente consegue o próximo contato... Mundo, Sábado, Julho 17, 2004 Pausa para balanço Estamos exatamente na metade da viagem - hora boa para dar uma pensada (enquanto passamos mais uma tarde adorável num cybercafé mandando o material pro Brasil...). Colombo "bombando" lá fora... mas isso, já pra entrar em clima de balanço, é o de menos. Dois meses depois, a idéia de que essa NÃO é uma viagem de passeio (nem uma viagem de trabalho & passeio, ou "working vacation", como americano adora falar...) já está definitivamente afastada. Isso aqui é "ralação". Tem um monte de momentos bons e divertidos, mas eles estão quase sempre ligados ao que a gente está fazendo, cobrindo, gravando. Mas, sem frustrações... O que dá pra fazer, no máximo, é uma listinha de lugares que eu quero voltar para visitar - DE FÉRIAS! E já tenho duas prioridades: Nova Zelândia e Sri Lanka - por motivos bem diferentes. NZ, pela maravilha da natureza (não consigo me conformar com o fato de ter saído de lá depois de ter visto apenas uma fração do que o país tem pra mostrar). E aqui (escrevo do Sri Lanka, claro), por motivos que eu ainda não consegui entender. É uma mistura de tranquilidade e confusão que eu adoro. Tem natureza, mas tem gente; tem religião milenar, mas tem vida moderna; tem um equilíbrio que me faz sentir bem - e, finalmente, ter vontade de voltar. Quanto aos outros lugares, nada pessoal! Mas vamos ver, quem sabe numa outra oportunidade. Algumas cidades, eu sei que vou voltar sempre que puder (Bangkok, Cingapura, Auckland), sempre que um vôo permitir uma conexão "malandra"... Os outros, bem, são tantos lugares ainda para conhecer... Continuando o balanço, os lugares são muito legais, muito bonitos, mas o que fica mesmo são as pessoas que a gente conhece. Foram várias novas amizades no caminho - da simpática estudiosa de kristang (Mrs. Valerie Scully), em Cingapura, ao vendedor de mandalas em Kathmandu (Amrit); sem falar nos brasileiros que cruzamos pelo caminho... Há encontros ainda mais rápidos (um instrutor de esporte radicais em Queenstown, NZ) ou a mulher que me levou para comer "balot" (aquele ovo de pato fecundado) em Manila, Bhatsy. Ou o casal que tomava conta do cybercafé em Honolulu (ela coreana, ele ex-marine americano). Ou a mãe do Tuli (meu amigo indiano). A lista é enorme... E o que aprendemos? Que a gente pode esperar qualquer coisa. Tem lições práticas: nunca confie em reservas de hotel feitas pela internet; consulte sempre a meteorologia antes de ir para as Filipinas; prepare-se para comer coisas muito esquisitas... Mas, fora isso, a essa altura, aprendemos que não podemos planejar muita coisa não. É fascinante a capacidade que o ser humano tem de lidar com o imprevisível. Nosso poder de improvisação, meu e do Guilherme, parece que está sendo testado ao limite (e ainda faltam dois meses...). E o pior (melhor?) é que a gente não aprende nunca... É imprevisto, não é? Então, como se preparar para ele? Só que tudo isso são detalhes. Existe uma lição maior - ou melhor, a comprovação de uma lição que eu me lembro de reaprender a cada vez que viajo: a de que esse é um mundo fascinante. As pessoas são tão diferentes e tão iguais (sei que estou caindo no clichê, mas, pra balanço, tudo bem...): todo mundo quer ter uma vida legal, quer ser feliz - e quer dividir isso com os outros. As pessoas querem conhecer outras pessoas - existe sempre um interesse genuíno no "outro". Ser brasileiro então (e especialmente nas partes do mundo que visitamos até agora) desperta uma curiosidade imediata nas pessoas. Mas acho que é um pouco mais do que isso: acho que é uma curiosidade que existe dentro de todo mundo (que é inclusive o que me move), de conhecer os outros; de saber o que eles pensam; de "viver" um pouco a experiência de alguém diferente. Se você chega com esse espírito, ele se torna imediatamente recíproco. Viajamos em paz - e isso facilita muito nossas conexões. Com isso, dificuldades, "perrengues", obstáculos (muitas vezes bastante desagradáveis), tudo vira uma coisa menor. E acho que é com isso em mente que vamos agora pra... Bom, isso é com você, amanhã. Mais dois meses pela frente - e animado! Mundo, Sexta-feira, Julho 16, 2004 Orfanato de elefantes: você resistiria? Mundo, Quarta-feira, Julho 14, 2004 Onde namorar em Galle Mundo, Segunda-feira, Julho 12, 2004 Theek Hai A expressao significa mais ou menos "tudo bem" em hindi. O ideal eh falar com aquela quebradinha no pescoco, tao tipica dos indianos. Mas, "theek hai" pro nosso proximo destino. Sabe aqueles lugares que voce acha que nunca vai um dia? Jah aprendi que, nessa Fantastica Volta ao Mundo, isso nao existe! Vamos pra Sri Lanka!! Algumas coisas que a gente se acostumou na India vao fazer falta por lah... Por exemplo, um dos momentos favoritos meus da semana: eu trabalhando ontem na internet, na casa do Tuli (esse meu amigo indiano), e a mae dele entrando no escritorio, olhando bem seria pra mim e dizendo : "you must eat something!" ("voce tem de comer alguma coisa!!"). Eram umas tres horas da tarde. A gente tinha tomado um daqueles cafes da manha (preparado por ela, claro) poderosos - ha menos de 4 horas!! Mas quem era eu pra desafiar a "ordem" de comer de novo? E quando ela comecou a cozinhar, o cheirinho me convenceu. Minutos depois jah estavamos eu e o Guilherme debrucados sobre uma outra refeicao... Isso sim vai deixar saudades. Mas, Sri Lanka, aqui vamos nos! "Theek Hai"! Mundo, Domingo, Julho 11, 2004 O que esse indiano tem de estranho? Essa eh a pergunta que parece irradiar dos olhos de varios indianos que cruzam comigo pelas ruas. Ao longo dessa viagem (e em varias viagens que fiz no passado), com bastante frequencia surgia a pergunta: "de onde voce eh?"; eu respondia que era brasileiro - e logo vinha a contestacao: "Impossivel! Voce eh indiano...". Uma, duas, tres, dezenas de vezes. E jah vou logo dizendo que isso me deixa bem contente (claro que eu adoro, tenho paixao, me orgulho, sou feliz - tudo porque sou brasileiro; mas essa confusao de nacionalidades sempre me pareceu bem charmosa). Bem, mas depois de chegar aa India, ninguem precisava mais perguntar. As pessoas automaticamente assumem que eu sou indiano - e pronto! Mas logo vem, aquele olhar que questiona: "mas tah faltando alguma coisa pra ele ser realmente indiano...". Acho que sou meio alto demais pra media do pais. O cabelo, um pouco fino demais. A cor da pele um pouco menos forte (apesar de eu estar um pouco bronzeado - de trabalhar debaixo do sol forte, vamos deixar bem claro!!!). E o sotaque em ingles nao enrolando a lingua nos "erres" na medida certa. Ah! e falta balancar a cabeca enquanto eu falo (numa das caracteristicas mais simpaticas dos indianos, todas as conversas sao pontuadas por balancadinhas de cabeca, como aqueles bichinhos que ficam apoiado no vidro traseiro de alguns carros; nao conheci ateh agora linguagem corporal mais simpatica do que essa...). Mas, descontados esses obstaculos, eu tenho o prazer de circular por aqui como se fosse indiano. E foi com essa desenvoltura entao que encarei uma noite no palacio do Marajah de Udaipur!! Dono de metade da cidade - ou melhor de quase 90% da cidade - ele eh o descendente da dinastia Mewar (soh lembrando, essa regiao do Rajastao eh tambem conhecida como a terra dos Reis!!). Ainda vive por aqui, mas, com o orcamento apertado, ele resolveu abrir parte de suas dependencias para hospedar turistas. Simplesmente nao resisti. Consultei o Guilherme e... resolvemos fazer uma pequena extravagancia (para o nosso orcamento) e ficar uma noite no palacio Shiv Niwas (apenas um dos outros quatro que ele tem em Udaipur). Quando entramos no quarto, nosso maior medo era nunca mais querer voltar para os hoteis que estavamos ficando ateh agora... Nunca vi tanto espaco - essas coisas acostumam a gente... mal.... Sem falar na vista (que voce vai ver no programa de hoje), que eh de frente para o lago Pichola (onde, claro, mais dois minipalacios repousam sobre as aguas...). Que lugar maravilhoso (voce vai ver que eu nao estou exagerando...)!! E, jah que estavamos num clima de realeza, encomendamos tambem um jantar de marajah, com comida tipica do Rajastao - digamos que foi pra comemorar os (quase) dois meses da nossa Fantastica Volta ao Mundo... Precisa dizer que foi a melhor comida que experimentamos ateh agora (pareo, talvez, em termos de sabor, soh para os quitutes que a mae do Tuli, meu amigo indiano que nos hospedou em Nova Delhi, prepara pra gente). Nessa onda de nobreza, saih para passear pela cidade e ver a movimentacao do que os indianos chamam de "Veneza da India". Faltam alguns canais, eh verdade... mas em termos de atmosfera, Udaipur tem tanto ou mais do que a cidade italiana... Gente na rua (mas nao tantas como em Delhi); templos pequenos, lojinhas, cheiros e mais cheiros de comida; vacas, cachorros, elefantes. E um espetaculo de danca dentro de um outro palacio, jah com a noite caindo... Se nao fosse aquela cama de marajah me esperando, eu bem que dava um esticadinha na cidade...
Viajando como um camelo, dormindo como um marajah!! Antes, as correcoes: fui enganado... Nao era uma viagem de 300 quilometros, mas sim de 700. Logo, como voce jah pode imaginar, nao levamos "apenas" 10 horas, mas 15 (QUINZE! Faco questao de escrever por extenso!), quase 16 (DEZESSEIS!). E aquela promessa de retomar o blog meras 10 horas depois do texto anterior, bem... Vamos voltar para aquela animada manha de quarta-feira, na porta da casa da Familia Tuli, quando nosso motorista sikh (uma das religioes mais populares aqui na India) veio nos buscar para a viagem ateh Udaipur. Bem, soh pra resumir a primeira hora, gastamos esses 60 minutos iniciais saindo de Nova Dehli... Ateh chegar a um trecho que eu pudesse chamar de estrada - daquelas estradas que a gente conhece, com verde, vaquinha, montanha, acostamento (calma, acostamento nao! - estamos na India!!) - enfim, "estrada com cara de estrada", foi mais uma hora. As distracoes iam aparecendo aos poucos: peregrinos com baldes de agua sagrada do rio Ganges (que eles estavam levando para os templos hindus de suas vilas, em viagem de dias - ou mesmo semanas!); carrocas puxadas por camelos; bichos diversos atravessando no meio da estrada; e caminhoes com um bizarro aviso pintado nas suas traseiras: "Horne Please!", que em portugues significa "Buzine Por Favor"... O que pode parecer um pedido absurdo para um motorista fica facil de ser entendido quando voce jah estah a tres horas numa estrada indiana: eles (os caminhoes) nao estao nem aih pra quem quer ultrapassar. Ninguem olha no espelho retrovisor (sao varios os carros na cidade, alias, que os mantem colados no carro, sem abri-los para permitir a visao...). Quer ultrapassar?... ora... BUZINE! Assim, qualquer estrada se transforma numa sinfonia atonal, com varios sons se misturando e fazendo o melhor para que voce nao possa tirar nem um cochilo... Mas, quem quer cochilar quando sua vida estah em jogo... E ainda faltam... quantas horas de viagem mesmo? Nossa sorte era que o motorista tinha uma postura zen (sikh zen... serah que existe?) e passava incolume pelas manobras mais radicais! Mais tres horas depois, chegamos a Jaipur, a capital do Rajastao, a famosa "cidade rosa" (sem entrar muito na historia, um marajah do seculo 19 mandou pintar todas as casas nessa cor pra receber o entao principe de Gales - e... pegou. Ficamos pouco tempo por lah, pois ainda achavamos que esse era o meio do caminho. Foi aih que a estrada comecou a piorar... O que tinhamos pela frente era inspiracao para qualquer videogame de aventura. Buzinas, raspadinhas, sustos (muitos sustos) e o que mais voce imaginar ateh um entroncamento tao confuso que mesmo nosso motorista perdeu o rebolado zen! Foi entao que veio a noticia: ainda faltavam cinco horas pra chegar em Udaipur. A informacao (correta, alias) de que a estrada melhorava consideravelmente dali pra frente nao melhorou nem um pouco nossas expressoes faciais... Mas, fazer o que? Voltar? Mais 10 horas - pra tras??? Peguei meu livro (jah que o assunto no carro estava rareando...) e devorei (nem era um livro muito bom, "Popular Music from Vittula", de um sueco, Mikael Niemi - nao sei se jah foi lancado no Brasil; foi o livro mais vendido da historia da Suecia; quer dizer, teria mexido comigo se eu tivesse 15/16 anos (talvez essa eh a razao do sucesso), mas nessa epoca, eu estava lendo um outro livro, que, esse sim, virou minha cabeca: "Porcos com Asas" - serah que ainda existe em catalogo?? Mas eu divago... vamos voltar para a estrada). Lah pelas nove horas da noite chegamos finalmente em Udaipur e fomos direto para um hotel, que era a casa de caca (essa "caca" tem cedilha, mas nenhum computador na India tem essa tecla, bem como nossos acentos, que voce jah deve ter sentido falta... desculpe) do marajah. Me pareceu bacana, mas estava tao exausto que nem prestei muita atencao. Na verdade, soh dormiria como um marajah mesmo no dia seguinte... Mas os sonhos dessa noite jah foram das mil e uma noites (eu sei, eu sei que essa historia nao eh indiana... mas me permita uma certa liberdade poetica...)
Mundo, Quinta-feira, Julho 08, 2004 A Fantástica Viagem de 10 horas de estrada! Estou de partida para Udaipur. São, segundo meu amigo, pouco mais de 300 quilômetros para percorrer. No entanto, dá uma conferida no título acima pra ver quantas horas estamos prevendo viajar... Na Índia, é assim. A frase anterior obviamente não é minha, mas sai da boca de qualquer indiano que você encontrar para explicar as peculiaridades do seu país. Passeamos nessa quarta-feira por Nova Delhi - por Delhi, que as pessoas mais desavisadas também chamam de "Velha Delhi". E as impressões variam do susto ao encantamento... Por isso parto para Udaipur com reservas... Mas acho que vou encontrar um lugar lindo sim. Conto daqui a (pelo menos) dez horas! Mundo, Quarta-feira, Julho 07, 2004 Quis o destino... ...que a conexao que nos tinhamos de pegar para Nova Delhi era... Kathmandu!! Ironia do destino ou "vinganca" para os que votaram nesse destino dois domingos atras? Nao vale a pena nem responder... Fiquei tao contente de passar 24 horas (na verdade, um pouco menos) na cidade que visitei em 1986... Eu sei, eu sei, eh provavel que voce nem tivesse nascido nessa epoca... Mas eu jah estava lah no Nepal, fazendo uma viagem bem maluca que incluia a India e a Indonesia... Nao foi assim... uma Fantastica Volta ao Mundo, mas foi muito bom. Soh que o espaco aqui eh justamente o da Fantastica Volta ao Mundo, entao, vamos lah. Um pouco de pirraca, resolvi aproveitar ao maximo as poucas horas na cidade (e ateh fazer belas imagens pra voce ver este domingo - alias, o Guilherme enlouqueceu com a beleza do lugar!). Tive uma certa decepcao. Nao com a parte religiosa e mistica. Os templos ainda estao lah, resplandecendo. Os olhos de Buda, pintados por toda a cidade e estampado em tudo, de camisetas a bones - ateh em capa para celular. Mas, em volta dessas coisas maravilhosas, uma pobreza terrivel. A situacao por lah nao estah das melhores. Explicando rapidamente, um grupo Maoista (e extremista) aterroriza a populacao fora de Kathmandu, e a instabilidade politica junto com a corrupcao ajudam a "enfeitar" o quadro. Os turistas, que estavam a cada esquina quando fui lah da ultima vez, sao escassos. E os nepaleses que encontrei (e eu paro mesmo pra falar com todo mundo...) estao tristes. Serah possivel que um pais tao abencoado pela natureza (o nome Everest te diz alguma coisa?) e pelo sagrado (sabia que o lugar onde nasceu o Buda fica no Nepal?) pode estar tao decadente. O que mais me comoveu foi a simpatia dos nepaleses. Duas pessoas em especial: uma mulher que trabalha na secretaria do turismo, Ujjwala Dali (na verdade uma indiana casada com um nepales); e um comerciante chamado Amrit Satyal (que nao eh de Kathmandu, mas de uma vila a apenas 40 quilometros da capital e que nao pode visitar seus pais porque a propria mae escreve dizendo que a situacao lah estah perigosa...). Foi na loja dele que eu comprei as mais lindas mandalas que eu jah vi (e olha que soh de andar na rua em Kathmandu voce jah ve centenas delas...). Passei boa parte dessas 24 horas papeando com ele e com seus irmaos - gente de um coracao enorme, que mora num lugar lindo e que nao sabe o que fazer pra ser um pouco mais feliz... Saih de lah com saudades. Nao eh engracado? Saudades de um lugar que mal visitei? Acho que parte da sensacao eh meu desejo de que, quando eu voltar pra lah (quem sabe na proxima volta ao mundo - se voce "deixar", digo, votar, eh claro - eu vou reencontrar a beleza que tanto me fascinou da primeira vez... Bem, mas quando eu jah estava quase melancolico, caih na bagunca de Nova Delhi - e quem tem tempo de ficar emocionado numa cidade como essa. Para a minha grande sorte, tenho um grande amigo que eh indiano e que mora parte do tempo no Brasil e parte do tempo pelo resto do mundo - inclusive na casa dos seus pais, em Nova Delhi. E...adivinha onde estamos hospedados? Que alivio!! Primeira noite em quase dois meses que nao vamos dormir num hotel!!
Mundo, Domingo, Julho 04, 2004 Se eu tivesse mil narizes... Acho que já usei essa frase antes - ou algo parecido... Não importa. Essa frase é perfeita pra declarar meu amor por Bangkok! Eu sei, eu sei, não está no nosso roteiro "oficial". É só uma escala da nossa volta ao mundo. Mas toda vez que eu passo por aqui (e olha que a gente tem passado... já é a terceira vez! sem contar minha parada de férias no ano passado!) é um deleite. Por que? Vou começar então pelos cheiros. Onde mais você pode ter um banquete olfativo que salta do cheiro de fritura para o de jasmim, depois de fumaça, em seguida goiaba, suor, perfume de grife falsificado, peixe, sabão em pó, lichia, fruta podre, sabonete barato, água parada, manga, cahorro molhado, jasmim de novo e mais uns dois ou três aromas que seu nariz tem trabalho pra reconhecer - e tudo no mesmo quarteirão! Chegamos hoje no fim da tarde por aqui, já nos preparando para o próximo destino - vamos pegar a conexão principal daqui; o ponto final, claro, depende do seu voto, daqui a pouco, no Fantástico. Vamos sair amanhã cedo. A prudência mandaria a gente descansar... Mas o mercado noturno aqui de Silom tá bombando a menos de uma quadra do nosso hotel... Tive de sair. O chamado era mais forte que eu... Fui enfrentar todos aqueles cheiros. Comer alguns sabores inusitados. Ver as cenas mais estranhas - dos "vendedores" de shows de sexo na rua às barracas com cópias fidedignas de bolsas das marcas mais caras de Paris por apenas uma fração do preço da verdadeira... sem falar nos surreais cantores cegos que andam pela cidade com uma caixa de som e um microfone, soltando a voz (quase sempre desafinada numa base musical distorcida) e pedindo esmola - uma espécie de karaokê ambulante que eu só vi aqui no mundo... Passear pelos estreitíssimos caminhos desenhados pelas barracas de camelô. Olhar nas caras das pessoas que estão também fascinadas com o espetáculo cotidiano (e imaginar que a sua cara também deve carregar a mesma expressão). São quase duas horas da manhã, voltei da rua com uma sacolinha com um calção bem vagabundo de lutador de box tailandês - e mal consigo dormir pensando em que destino vai dar na votação de hoje. Como trilha sonora, todos os sons que se misturam na calçada lá fora. Ah, se eu tivesse mil ouvidos... (acho que já usei essa frase antes; e a frase anterior também...)
Mundo, Sábado, Julho 03, 2004 Permita-me começar pelo patinho... ...ou melhor, pelo ovo de pato fecundado. Não sei bem como chamar isso. Aqui, em Manila, eles chamam de "balot" (que se pronuncia mais ou menos como "balúth"). Mas nenhum nome, nenhuma palavra é capaz de resumir a sensação de comer uma coisa dessas. Estive ausente aqui do blog alguns dias - e não preciso nem me alongar: você já sabe que, se eu "sumi", é porque as coisas aqui estão complicadas... Essa etapa da viagem está se provando um pouco mais que isso: complicada é pouco... está praticamente impossível (me lembre de rever aquele agradecimento que fiz anteriormente a quem votou nas Filipinas!!!). Foram dias de dificuldades absurdas - e eu não estou nem falando do tufão! Mas faço aqui publicamente uma promessa de passar uma borracha em tudo isso se, depois de dormir a noite de hoje, eu acordar amanhã sem a lembrança do que foi engolir aquele OVO DE PATO FECUNDADO - ou, pra ser mais específico, metade dele... porque o resto, nem com cachê!! Tentando descrever: é um ovo cozido; de pato; só que a gema, bem, não é mais gema, é um embrião; entendo pouquíssimo do desenvolvimento dos bichos antes de eles nascerem (aliás, entendo pouco também do desenvolvimento depois de eles nascerem...), mas acho que o que é cozido ali no "balot" já é um feto. Quer conferir? Penas? Tem. Ossinhos? Tem. Bico? Tem. Pescoço? Tem. TEM TUDO! E fica lá... enroladinho. Você está percebendo que estou tentando tirar algum humor dessa cena trágica? Só que se, como reza o clichê, comédia é tragédia + tempo, estou prevendo que vou rir dessa história lá pelo século 32! Nem sei se vai dar pra mostrar tudo no Fantástico, porque... bem, deixa pra lá. Quem sabe se eu falar um pouco das outras mazelas que enfrentamos por aqui. Já mencionei o tufão, certo? Mas o sol e calor que entrou na sequência nos fez sentir saudades daquele "ventinho"... Ou vamos pegar pela poluição e o trânsito caótico de Manila? Espera! Você pode até achar que essa etapa me tirou um pouco do sério. Tirou sim. Mas só um pouco. Manila tem coisa lindíssimas: nosso passeio por Intramuros foi sensacional. E os filipinos são tão receptivos e agradáveis que os brasileiros que encontrei por aqui não têm outra saída a não ser se superar em simpatia. |
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