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Mundo, Terça-feira, Agosto 31, 2004
Safari? Eu?

Até ontem à noite, essas duas perguntas seriam invariavelmente respondidas com a seguinte exclamação: nem pensar! Mas, com o dia inteiro pra gastar aqui em Nairobi (nosso vôo soh sai às 23h30!), me deu uns cinco minutos e peguei um desses pacotes. Sozinho. Só duas horas de Nairobi, achei que não fosse "doer". Adivinha? Cheguei lá, no lago Nakuru, e na hora que vi a primeira zebra, fiquei bobo. Dah pra imaginar minha reação quando eu encontrei uma girafa, cara a cara? E quando avistei um casal de rinocerontes brancos? Tudo dentro do carro, claro, pois sair é perigoso (se bem que ainda não entendi quem pode se sentir mais ameaçado, os humanos ou os bichos da reserva...). Mas fiquei surpreendente emocionado com a visita. Queria até ter mais tempo pra contar, mas se eu não sair agora desse cybercafé... adeus vôo pra chegar amanhã (só à noite) em Bilbao... Pelo menos já sei com o que vou sonhar no avião... Quer apostar em que bicho?

Mundo, Segunda-feira, Agosto 30, 2004
Como eu aprendi a parar de me preocupar e gostar de Nairobi

Depois que o pesadelo passa, tudo eh uma maravilha... Quer dizer, mais ou menos. Acordei hoje com um certo "bode" de Nairobi. Comos e a cidade fosse culpada dos problemas que tivemos com a transmissao da reportagem neste domingo... Nao dah pra culpar ninguem, eu sei. Mas na hora que acordei eu resolvi culpar a cidade. E levantei "invocado". Soh vamos sair do quenia amanha aa noite, bem tarde (rumo, claro, a Bilbao!). Entao nao tinha como escapar: era melhor encarar a cidade de frente e ver se eu me dava bem com ela... Para isso, fiz meu exercicio favorito nessa Volta ao Mundo: saih para passear pelas ruas. E era disso que eu estava precisando. Parte do meu "bode" com a cidade era porque eu mal a tinha conhecido. Quando chegamos (de Londres) dormimos e logo no dia seguinte fomos a Mombassa. Na volta, sai praticamnete do aeroporto para o arido cenario do escritorio de um servidor poderoso, onde reinavam as paredes brancas. Alias elas poderiam ter sido pintadas com o grito de Munch (incrivel alguem roubar esse quadro, nao?), que eu nem prestaria atencao. Estava tao estressado por conta dos problemas com a transmissao, virando a noite, que eu mal percebi, quando amanheceu, que a vista do tal escritorio (que fica num raro decimo-quinto andar do predio) era maravilhosa (na verdade, soh me encantei com essa vista hoje, quando voltei lah aa tarde para pagar pelo servico). Mas hoje, andando pelo centro de Nairobi, aos poucos fui cedendo ao ritmo das ruas. Acho que jah escrevi isso aqui antes, mas vale a pena repetir que o que faz uma cidade legal acaba sendo as pessoas. Nao que eu fiz grandes amigos por aqui - pelo menos AINDA nao! Mas soh de olhar as pessoas, minha ma-vontade foi cedendo. E, depois do almoco eu jah estava arrependido. Mas o que Nairobi tem de tao legal? Primeiro, tem movimento - o que eu jah gosto. As pessoas param pra falar com voce na rua - metade, claro, eh pra te oferecer um safari; e um quarto eh pa pedir dinehiro; mas o outro quarto quer genuinamente saber de onde voce eh (nao tendo a pele tao escura, eh natural que a curiosidade leve aa pergunta e que a pergunta leve aa conversa). Falei com um cara do Sudao. Duas meninas daqui. Um senhor que me disse ser "masaai" (embora seu paleto impecavel o fazia parecer vir de uma cena do Rio antigo - me lembre do filme "Madame Sata"). Ninguem muito especial. "Soh" gente - que pra mim jah tah otimo. Depois ainda tem a propria cidade. Predios aparentemente aridos acabam compondo uma fachada interessante - que fica ainda melhor quando, de repente, numa esquina aparece uma construcao "art deco", ou melhor, uma interpretacao africana do "art deco". Nao vi bancas de revista, mas vendedores de jornais e outras publicacoes espalham seu produto pelas calcadas: os titulos mais variados (o que voce me diz de uma revista - aparentemente africana - que se chama "Disastres - seu guia para uma vida mais segura"? O artigo de capa da semana era sobre... fome!) e as datas de publicacao podem registrar meses e ateh anos que o calendario deixou bem pra tras. As vitrines com grades. As confeitarias com doces em cores que desafiam meu apetite (certamente nao o dos quenianos que fazem filas para compra-los). Os "fast-food", que aqui servem para dar nome ao que no Brasil a gente chama de "TV de cachorro" (aqueles frangos assados girando como numa sequencia surreal do jah surreal desenho animado "Fantasia"). Infinitos modelos de paleto (o daquele sehor "masaai" nao era nem o mais interessante) em cores e cortes que nenhum costureiro futurista dos anos 60 poderia sonhar. E a maravilhosa obessao que as mulheres tem com seus penteados - verdadeiros origamis de cabelo, que aas vezes ainda leva um adereco (laco, flor, renda, mais cabelo - pode escolher). Lindas, elas desfilam sem saber que estao desfilando - estao apenas indo pro trabalho, vagando de um lugar para o outro, indo comprar um bloco de papel, namorando no celular ou correndo pra subir na escada para o segundo andar do predio onde fica esse cybercafe. Jah estah de noite e fiz as pazes com Nairobi. Como diz o titulo lah em cima ("emprestado" de um filme de Stanley Kubrick, cujo titulo original eh "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb" - e as chances de voce ter nascido antes do lancamento dele nos cinemas eh a de 1 para 5.657!!; eu mesmo tinha soh um aninho nessa epoca - mas eu fui atras...), foi um aprendizado. Mas valeu a pena nao faltar aa aula de hoje...

Mundo, Domingo, Agosto 29, 2004
Uma hora tinha de acontecer...

Estava tudo dando muito certo até agora. Tão certo que já estava criando até um certo estresse. Já explico... Desde que saímos para essa volta ao mundo, contamos com uma parcela de coisas que pudessem dar errado. É natural, acontece em qualquer projeto seu, em qualquer tarefa de maior fôlego que você se propõe a fazer - mesmo numa simples reportagem que te leva às ruas. Assim, três meses e pouco de viagem sem uma grande complicação, quer deveria nos "tranqüilizar", estava, na verdade, causando o efeito contrário... "quando acontecer, vai ser muito ruim..." - sabe essa sensação? Bem, muito ruim não foi - e devo explicar aqui que o problema que tivemos foi estritamente técnico, não posso nem reclamar da falta de problemas maiores (por exemplo, de saúde) com a qual fomos abençoados até agora. Mas que eu queria mostrar mais de Mombasa pra você neste domingo, isso eu queria... Especialmente porque fiquei encantado com o lugar - o que gera um natural entusiasmo meu com o que estou reportando (uma "síndrome" que você que acompanha tanto no blog quanto nas matérias, que já conhece bem...). Tudo bem, domingo que vem tem mais... Mas não me conformo. Nunca me senti tão impotente. Só pra te dar mais detalhes, tudo estava funcionando bem, até a tarde de sábado. Ainda em Mombasa, encontramos esse provedor (um dos mais poderosos daqui do Quênia) e, como sempre, nos instalamos lá, já pegando intimidade com o pessoal que trabalha na área (outro fenômeno que se repete nessa nossa viagem... ainda bem!). Isso foi na sexta-feira, lá pelas 19h. Virei a noite no computador, claro - você pode bem imaginar a quantidade de imagens interessantes que queríamos mandar para o Brasil. (Só pra abrir uma explicação dentro da outra, pra quem ainda não sabe, todo esse projeto só foi possível porque apostamos na tecnologia da internet: as imagens estão sempre sendo enviadas pela rede - saem dos laptops que estamos carregando direto para os computadores da TV ; geralmente, pra quem não é muito familiarizado com televisão, esse material é normalmente "gerado" por satélite; mas isso tem um custo alto; por isso mesmo a tecnologia de banda larga da internet nos permitiu viabilizar esse projeto, enviando o material de vários lugares do planeta com - quase - a mesma simplicidade que você manda um e-mail, por um custo bem menor. Demora um pouco mais, é verdade, pois estamos mandando "arquivos" bem pesados, como se diz no jargão: são imagens, afinal de contas! Mas encaramos o desafio: isso tudo torna o projeto inovador e abre muitas portas para futuras reportagens e coberturas - e funcionou bem... até agora!). Enfim, tínhamos muito material para mandar, mas tínhamos também de voltar para Nairobi, a capital do Quênia, pois os vôos pra sair de Mombasa estavam lotados (com a nossa "sorte" de sempre, chegamos lá bem no fim-de-semana quando acontece a maior feira de agricultura do país, o que se traduz em aviões "entupidos" e hotéis idem...). Assim, depois de enviar cerca de 40% do material (basicamente o que você viu no programa deste domingo), no final da tarde de sábado, empacotamos tudo e viemos para Nairobi. Nosso vôo era às 20h15m, com duração de 45 minutos. Consegui chegar no escritório do provedor (o mesmo de Mombasa) lá pelas 22h30m. E logo percebemos que havia um problema de conexão. Seria talvez só com o nosso servidor no Rio, que recebe as imagens? Que nada! Fomos tentando vários endereços de websites no Brasil e nenhum - NENHUM - conectava... Nada, nem os dos grandes provedores brasileiros, nem dos jornais, dos bancos, de fofoca, de chat, de blog - nada! Seria um problema apenas de onde eu estava? Começamos a ligar para os outros grandes provedores do Quênia e a situação era a mesma. De alguma maneira, no meio da noite de sábado, o Quênia parou de falar virtualmente com o Brasil... E a situação continuou até domingo à noite (precisa explicar que "virei" mais uma noite em claro - existe recorde pra isso?). Aí, a pergunta foi... Justo comigo?? Foi aí que eu lembrei da regra do "tá dando tão certo que alguma hora algo vai dar errado"... Tudo tem uma solução, claro. Conseguimos colocar no ar alguma coisa. E eu tenho certeza de que o que a gente vai mostrar no domingo que vem vai representar bem nossa passada (ainda que rápida) pela África. Mas é que eu queria tanto... Vou tomar o episódio como mais uma lição zen... Vamos em frente, pois ainda tem uma boa "perna" até a gente voltar pro Brasil (parece que tá tão perto, só três semanas, mas ao mesmo tempo a nossa noção de tempo, a essa altura, é muito flexível; especialmente depois de um dissabor como esse, 20 dias pode parecer 120...). E estou bastante animado em ir para o País Basco, na Espanha. Vamos em frente, repito, pois cada semana (pegando emprestado uma idéia de um certo "poetinha"), pra gente, é infinita. Com tudo dando certo, ou não!

Mundo, Sábado, Agosto 28, 2004
Mais uma manhã ensolarada...

Como eu sei? Porque eu vi o sol nascer! Estava chegando de uma festa, dancei a noite inteira quando, de repente olhei pro céu e... Não... não adianta enganar... Quisera eu ter chegado de uma festa: sexta-feira é a noite que "bomba" aqui em Mombassa (um passeio rápido pela região da praia de Bamburi te deixa desorientado de tantas faixas convidando para os bailes - o mais animado deles, me conta Titus, nosso motorista, é o da Tambo Nightclub, onde "tambo", em suaíli, significa "elefante"). Mas vai ficar pra próxima oportunidade. Virei a noite transmitindo as imagens desse servidor - um escritório no décimo andar do único prédio com dez andares daqui de Mombassa!! E isso depois de um dia (esse mesmo, que ainda não terminou) que foi pra lá de intenso. Exploramos a cidade com fome de desbravador. Confesso que chegamos no Forte Jesus com a expectativa lá em baixo... Outro forte? Mas esse é realmente impressionante e bem preservado - sem falar que tem o charme de dar de cara com o Ocena Índico... Depois teve passeio na cidade antiga. Um almoço à moda de Mombassa (leia-se: dispensando qualquer tipo de utensílio "moderno", essas coisas dessa "juventude", de usar garfo e faca...). E um mergulho um pouco mais aprofundado nas diversas culturas que formam o Quênia. Uma espécie de parque, na costa norte de Mombassa, oferece amostras de vida primitiva dessas principais etnias. São muitas e todas muito variadas. Mesmo ligando o "firewall" antropológico - que não permite que a gente fique deslumbrado a qualquer sinal de gente vestida com panos, com uma lança na mão, e morando em ocas - a experiência é no mínimo curiosa. Das músicas aos costumes, tudo é feito para você "vivenciar" o que essas tribos trazem de tradição. Pra gente foi ótimo: tivemos a chance de conhecer (e poder mostrar no domingo) mais de uma cultura de uma vez só! Numa recapitulação rápida, bebi vinho de palmeira, tentei (sem o menor sucesso) usar o arco e flecha, usei uma coroa de pele de crocodilo, ganhei um passe de um curandeiro e dancei com os Masaai - e aqui vale uma pausa. Talvez você já tenha visto uma imagem dessa tribo - ou melhor, dos homens dessa tribo: esguios e elegantíssimos, eles são famosos por se enfeitarem com pulseiras e colares de contas coloridas, num visual que muitas vezes ultrapassa, em adereços, o das mulheres do próprio grupo. São uma espécie de "dandy" da selva queniana, impecáveis no andar - e mais ainda no saltar. Sua dança, tão suave como a música "a capella" que a acompanha é feita basicamente de pulos - altíssimos - numa coreografia que insiste em desafiar a gravidade. Seduzido pela beleza do "look" acabei aderindo à moda - de maneira bem mais modesta: fiquei "só" com uma corrente para o torso e um colar... Tentei até dar uns saltos como eles, mas nem os (calculo) sete quilos que perdi nessa viagem me fizeram chegar perto da leveza dos Masaai... Várias pessoas me escreveram, aliás, sobre essa "afinada". Querem saber se o segredo é umas sessões de ioga mais puxadas; a variedade das dietas; as trocas de fuso horário; os espaços maiores entre as refeições; carregar (junto com o Guilherme) 120 quilos de bagagem e equipamento pra todo lado; muita festa... Ah! Muita festa... Já esqueceu como eu passei essa última noite de sexta? Minha chance de pegar um bailão agora na pista do Tambo vai ser sei lá quando, já que na próxima sexta-feira eu vou estar... onde mesmo?

Mundo, Quinta-feira, Agosto 26, 2004


Nao existe semana tranquila!

Estamos há apenas 4 semanas do final dessa Fantástica Volta ao Mundo (já? eu que o diga... mas isso é uma reflexão pra outra hora). A essa altura você (e mesmo eu) já imagina que estamos preparados para tudo que possa acontecer. Bem, aqui vai uma surpresinha... Tudo é possível. Nesse esquema frenético e sem uma brecha pra gente se adiantar, nada, nenhuma experiência passada é útil para nos ajudar a lidar com as dificuldades de um novo país. Alfândega no Uzebquistao? Ok. Internet precária na Índia? Já vimos também. Dificuldades de alojamento (em Cingapura ou Manila)? Já experimentamos. Longas distâncias em rotas difíceis. Tá visto! Mas nada disso nos prepara para a etapa seguinte. Já sentiu? Já percebeu que isso é só uma introdução para eu poder desfilar as mazelas da semana? Acertou. Só que não vou fazer isso agora. Simplesmente porque tem tantas outras coisas pra fazer. Vim até aqui, atravessando meros 150 metros a pé numa estrada do litoral norte de Mobassa (uma travessia que poderia até ser solitária se os carros com farol bem alto e direção duvidosa não cruzassem perigosamente por mim no caminho sem acostamente para me fazer um pouco de companhia...) só para não deixar você sem noticias (síndrome da preocupação de mãe?). Mas tenho de tentar colocar em ordem uma outra dezena de coisas - da conexão na internet com africaonline ao queniano que vai ser nosso guia amanhã. Posso contar com sua compreensão? E com seus votos de que a semana que vem seja mais...tranquila? Asanti! (tá com o dicionario de swahili na mão?)




Mundo, Segunda-feira, Agosto 23, 2004
MOMBASSA!

As letras maiusculas sao soh para comemorar e ressaltar a sonoridade do nosso proximo destino!! Muito bem, estou em Londres, esperando para pegar essa conexao ateh Nairobi, no Quenia (pra depois seguir para Mombassa) - e jah feliz de saber que vou voltar aa Africa. Estive lah ha uns bons anos - na epoca que fiz, para o Fantastico tambem, uma serie sobre os paises que falam o portugues, lembra? 1998... nossa, como passa rapido! Angola, Mocambique, Guine-Bissau, Cabo Verde (uma das melhores lembrancas) e Sao Tome e Principe (a melhor lembranca, disparado!!). Depois ainda visitei, rapidinho, de ferias, o Marrocos. Mas de todas essas passagens, o que guardei de lah eh que nao dah pra fazer aquele comentario banal: "Jah estive na Africa... e a Africa eh asim...". Eh um continente tao diverso, tao lindo (e tao sofrido), que qualquer generalizacao seria ingenua. O que eu espero ver lah no Quenia - em especial, Mombassa - eh mais uma peca de um mosaico fascinante, que, dentro dessa volta ao mundo, soh me deixa ainda mais excitado... Vou tentar nao pensar que soh falta um mes pra acabar... Ateh MOMBASSA!!



Mundo, Sábado, Agosto 21, 2004
O som da turba

Estava eu caminhando aqui para a Redação, andando pelo estádio olímpico... Acho que já falei, mas vale a pena repetir, que eu não estou na cobertura das Olimpíadas. A nossa Volta ao Mundo passa "paralelo" a essa cobertura maravilhosa e emocionante. De vez em quando, como eu também já escrevi aqui, eu "esbarro" nas competições. e justamente é sobre esse último esbarro que eu queria falar rapidinho. Parto para Londres essa madrugada - e de lá vou esperar a escolha do meu próximo destino (é mais fácil pegar as conexões de lá do que de Atenas em época de Olimpíadsa - acredite!). Enfim, essa caminhada então foi minha "despedida" do evento. E foi emocionante. Não vi nenhuma disputa, nenhum jogo (o Brasil está jogando contra a Rússia no vôlei masculino, mas acompanho de longe...). Mas ouvi uma torcida animadíssima no estádio olímpico. Meu caminho para cá circunda justamente a enorme construção de linhas moderníssimas. Iluminado (já é noite) então, fica uma sinfonia. Mas, por falar em sons, o que me emocionou mesmo foi o público vibrando com as provas de atletismo que estavam acontecendo lá dentro. É tão boniot esse som - o som da turba - que o braço da gente quase que levanta sozinho querendo acompanhar a vibração... No terceiro grito, eu já estou quase flutuando... Que bela despedida de Atenas...

Mundo, Sexta-feira, Agosto 20, 2004
O mano é hex!

Se eu tenho que agradecer alguma coisa por nos ter ajudado muito nessa viagem, vou agradecer ao acaso! Dois exemplos recentes. Primeiro: ontem de manhã acordamos meio "sem destino" em Cefalônia. Depois de explorar uma boa dezena de praias - talvez duas... - e ter investido em cavernas e lagoas subterrâneas, estava meio sem inspiração para o próximo passo. Mesmo com minha resistência às maravilhas da natureza já bastante baixa, ainda não estava preparado para mais um dia de deslumbramento (calma, leia até o fim!!). Procurando e perguntando, descobrimos que numa praia que não havíamos ainda visitado, em uma das pontas da ilha, existe um banho de lama estupendo, miraculoso, revigorante... Bem, resolvemos ir até lá. E eis que no caminho, ao pegar uma entrada errada (e entrada errada nessa ilha é um problema, pois as estradas são tão estreitas, que são quilômetros e quilômetros até a gente encontrar um retorno), caímos... no lugar certo! Uma placa escrita à mão convidava: "esportes aquáticos - aventuras no mar"... Seguimos a seta, precipício abaixo (um dos caminhos mais assustadores que eu já passei até agora - e isso contando com o percursso Nova Déli - Udaipur!!). E lá estava ele: um barquinho a motor, pequenininho mas perfeito pra o que a gente precisava - explorar um pouco essa costa banhada de azul - aliás, nem deve chamar azul essa cor; alguém já deve ter inventado uma definição melhor para esse tom que reflete ao mesmo tempo um luz incrível, uma profundidade densa e uma vibração quase audível. Os donos do barco (uma americana, Nancy, casada com um grego, Kosta) não podiam ser mais simpáticos - tão amáveis que nem chegaram a perguntar se alguém sabia dirigir o barco. Com quase tudo pronto para embarcar, resolvi eu lançar a questão, um pouco nervoso - e já sabendo que eu não faria parte da lista do timoneiros. Sobraram o Guilherme e nosso acompanhante em Cefalônia, o Felipe - um brasileiro filho de pai grego, fluente na língua local, e que prefere ser chamado pelo seu nome original, Filipas - pronuncia-se "Fílipas" (ok, de agora em diante, seja feita a sua vontade). O Guilherme disse que tinha experiência, mas o Filipas se adiantou e disse que sempre saía com o pai dele de barco, que era com ele mesmo. Entregamos nossa sorte (pra não falar a da câmera!!) em suas mãos - e zarpamos. Acho que eu falei acima que estava já no meu limite de apreciação da natureza, não falei? Bem, tive de rever esse limite. O que nos esperava (e que você vai ver nesse domingo) era uma paisagem estupenda. Praias, impossíveis de serem alcançadas de carro (sequer a pé) - só pelo mar - se sucediam conforme íamos correndo a costa. Recortadas por grutas, penhascos dramáticos - e, claro, emoldurada por dois azuis, o do céu e o do mar - a paisagem fez a gente esquecer o tempo. Num mergulho rápido (não resisti) perdemos a referência do relógio e quase nos atrasamos para o almoço, que já estava combinado. Voltamos correndo (tentado registrar o máximo desse visual) pra uma taverna (como eles chamam esses restaurantes pequenos por aqui) bem na beira da praia que é da mesma família há mais de cem anos e onde tudo (até o vinho branco que eles servem geladinho) é feito por ela. Precisa dizer que foi o melhor peixinho frito que eu já comi. Não nessa viagem, mas na minha vida? Estávamos já na terceira pratada quando passa um carro na praia, tocando Ivete Sangalo - no último volume! Só podia ser brasileiro, claro! Mas como? Seguinte: a Nancy, dona do barco, tem uma amiga brasileira, a Adriana, que mora aqui há 12 anos (!) - e não vai pro Brasil há oito! Nancy ligou pra Adriana e, quando ela soube que a gente tava ali na mesma praia que ela mora (e onde acabou de abrir um hotelzinho), ela pegou o carro e foi nos encontrar. Adriana é casada com um grego, Georgios, e tem dois filhos, um de nove anos e o mais novo, que todo mundo chama de Mano - e que é hex! Quer dizer, tem seis anos... Mas na frase da avó coruja (que está de passagem por aqui pra ajudar a filha com o novo hotel e fala muito pouco grego), ele "é hex"!! Foi um encontro animado - nada mal pra um dia em que a maior expectativa era tomar um bahho de lama... Ah, e eu falei que ia dar dois exemplos de como o acaso ajudou nessa viagem. Bem... o segundo é que... o Filipas comentou, sem querer, que o prato grego que ele mais gosta é... olho de cabra!! Se alguém se lembra da primeira versão do programa "No Limite", sabe bem o que OLHO DE CABRA significa pra mim!!! E, como repórter-degustador, me comprometi na mesma hora a experimentar a iguaria (só imaginando o sorrisinho de vingança que os participantes daquele "No Limite" estariam esboçando ao ver essa cena...). Mas veio o precioso acaso me ajudar: a temporada de assar cabeça de cabra - e, por conseguinte, comer os olhinhos - é só na Páscoa... Que pena... Fiquei muito sentido... Tão sentido que eu prometi (com os dedos bem cruzados nas costas) que volto aqui em abril do ano que vem só pra provar essa delícia... Obrigado, acaso!!


Mundo, Quinta-feira, Agosto 19, 2004
Encontro (forçado) com a natureza

Já deu pra perceber em textos anteriores que os lugares com os quais eu mais me identifico são os mais, digamos, urbanos. Bangkok, Istambul, Cingapura. Claro que os que têm um grande clima espiritual também impressionam, e merecem minha atenção. Mas eu gosto é de cidade. Assim, mesmo com toda a promessa de paraíso que Cefalônia trazia (e que eu mesmo comemorei aqui há alguns dias), lá no fundinho estava contando com dias de pura contemplação - e de uma certa tranquilidade "preocupante". Natureza, prefiro em doses bem modestas. Ou devo dizer... preferia? Como tantas coisas que eu fui obrigado a rever nessa viagem, o encanto da natureza - o sublime, pra emprestar erroneamente o termo em inglês (que se escreve da mesma maneira, mas quer dizer o impacto que as grandes paisagens causam na gente - repito, estou adaptando às pressas...). Coisas de Cefalônia. Nem foram tanto as praias. Tudo bem, são exuberantes e com esse mar que é um absurdo. Mas são tantas que você chega a perder a referência. O que me pegou aqui foram as atrações extras, as montanhas, os vales (até os precipícios); as cavernas e as lagoas encondidas, cuja água cristalina muda de cor a conforme a hora do dia (é essa a das fotos); as estradas panorâmicas; o horizonte. Escrevo isso voltando de um dia cheio de descobertas, humm, "naturais"... Acho que preciso digerir um pouco pra falar melhor. Mas não queria deixar o entusiasmo passar... É tudo tão lindo...

Mundo, Segunda-feira, Agosto 16, 2004
Hellas

As pessoas são estranhas. Num bom sentido. Num ótimo sentido. Tive meio dia de folga hoje - e isso não é uma figura de linguagem. Das sete da manhã, quando soube para onde o público escolheu que a gente fosse essa semana, até às 16h, fiquei em função de agitar a produção em Cefalônia. Só então pude dar uma voltinha por Atenas - a primeira (já visitei a cidade há 14 anos, mas foi tão rápido que nem conta). Foi uma voltinha bem rápida: começou, claro, na Acrópole, o monumento mais famoso de toda a Grécia. E depois simplesmente fiquei andando por Takla - um grande centro comercial e de entretenimento - e, por conseguinte, de turistas também... Foi lá que eu comecei a pensar, ou melhor, a perceber como as pessoas são estranhas. Num bom sentido - repito. Nesse momento, escrevo na Redação da TV Globo no centro olímpico, e quem chega à sala é nosso primeiro medalhista Leandro Guilheiro. Receceu palmas de todos. Claro. Como não aplaudi-lo? Dá-lhe Leandro! E é nesse sentido que eu reafirmo que as pessoas são estranhas. São tão iguais que chega a ser estranho. Aqui em volta, nas ruas de Atenas, nos templos de Angkor, no metrô de Bangkok, nós somos todos muito iguais. Nos detalhes - nas diferenças. Gente comprando souvenirs das Olimpíadas. Esperando ônibus ao lado de uma foto de uma mulher grega com a filhinha. Tomando um último gole de café antes de andar pra casa. Escolhendo de que país comprar um jornal. Esperando a liquidação aumentar o desconto pra 70%. Tentando entender como os jurados dão a nota para mergulho sincronizado. Posando para fotos em cenários absolutamente sem-graça. Vibrando com uma medalha. Explicando endereços que o turista jamais vai conseguir chegar. Lembrando do que tinha de fazer até o fim do dia. Esperando olhares de quem passa no calçadão. Elogiando uma menina chamada Sophia. Desistindo de chegar num jantar que você não tá a fim de ir. Acho que são (novamente) esses ensaios (Montaigne) que eu estou lendo. Ou melhor, o casamento perfeito do que está na leitura e as observações que eu estou colecionando na viagem. Só tem gente maravilhosa no nosso caminho. Ou eu sou o cara de mais sorte do mundo nas amizades ou (e eu prefiro acreditar nisso) a maioria das pessoas está mesmo disposta a conhecer outras pessoas. Japoneses em Bangkok. Cingaleses em Nova Delhi. Brasileiros na Turquia. Neozelandeses no Sri Lanka. Romenos nos Estados Unidos. Turcos na Austrália. Uzbeques em Kiev. Italianos em Filipinas. Gente, gente, gente. E, no pano de fundo, no final dessa tarde maravilhosa, "aniversário" da nossa Volta ao Mundo (três meses!)... Hellas. Hellas? Pergunte a um grego amigo seu...

"Trick Me" - Parte 2

Vim caminhando aqui pro centro olímpico nessa manhã pra descobrir para onde eu iria agora e adivinha qual era a música que estava tocando no refeitório do café da manhã... Achei que era um bom sinal - como eu já disse, você sempre pode confiar em músicas... E, por mais que minha curiosidade nata estivesse me puxando para a Albânia (acho que vou ter que programar por minha conta aquela visita para Butrint...), a perspectiva de uma viagem até Cefalônia veio como um presente. Já estou com umas idéias aqui, como mostrar esse paraíso que vamos encontrar... Mas deixa eu sair correndo pra produzir mais essa etapa - segunda é dia de produção, como vocë talvez já saiba... E se sobrar tempo, eu tenho que achar esse CD!!


Mundo, Domingo, Agosto 15, 2004
"Trick Me"

Numa viagem longa dessas, música é fundamental. Descontando as "cores locais" (sons que só poderiam ser ouvidos em lugares como Uzbequistão, Índia, Camboja etc.), algumas canções sempre nos acompanham. Algumas fazem mais sucesso em um país, outras você só ouve num lugar - mas tem essa musiquinha que está em todas as rádios que a gente liga, não importa em que cidade: "Trick Me", da Kelis. É o som do verão (nessa parte do mundo -será o tema do inverno brasileiro também?). É genial. É também simplérrima. Tão minimalista que Missy Elliot deve estar com uma ponta de inveja. E, acima de tudo, é a melhor companhia. Por exemplo, quando eu a ouvi hoje de manhã, na varanda do apartamento onde eu estava preso, eu tive a insipração para conseguir não passar meu primeiro dia de folga em algumas semanas trancado num só lugar. Quer a história do início? Bem, começou na terça, quando a gente chegou em Atenas e, meio sem supresa, pois já esperávamos algo assim, descobrimos que não era tão simples assim achar um lugar para dormir em Atenas, na semana de abertura das Olimpíadas. Até tem lugar, mas o quarto de hotel mais barato que encontrei numa sondagem rápida custava 350 euros (mais de R$ 1.200) - por dia!! Precisa dizer que isso estava "um pouco" além do nosso orçamento? Meio desesperado, mas ao mesmo tempo com equilibrado com a tranquilidade de quem já quase ficou no meio da rua em Manila, Cingapura etc., pensei em uma alternativa rápida - e apelei pros colegas de trabalho! Uma parte da equipe que está trabalhando nas Olimpíadas está hospedada em apartamentos próximos ao estádio olímpico, pra facilitar a operação. Não tive dúvida: pedi pouso. Guilherme foi parar em um apartamento e eu em outro (pra não amontoar demais...). Como na Índia, ficamos hospedados "de favor" - com a diferença de que a mãe do Tuli (meu amigo indiano) não está aqui pra cozinhar pra gente... mas isso é detalhe. O fato é que, como estou de "convidado" num desses apartamentos não tenho a chave. Esse onde fiquei está ocupado por três pessoas. Se você pensar rápido vai chegar à inevitável conclusão de que só sobrou o sofá pra mim. Sem problemas, pois como passei a maior parte da semana em Meteora, como geralmente chego exausto - e como o sofá é "quase" aconchegante-, a idéia de duas ou três noites nesse esquema soou pra mim como um spa! Mas, ontem à noite, o calor estava brabo por aqui. E parte do aconchego do sofá se deve ao fato de ele ser forrado em camurça. A combinação não é, de fato, muito convidativa. Assim, no meio da madrugada, levantei e fui dormir na varanda (parte privilegiada dos apartamentos atenienses). Quando acordei, o apartamento estava vazio - meus colegas já haviam saído para a Redação, no centro olímpico de imprensa. Levantei aos poucos, saboreando o domingão de folga - e até fazendo planos para passear em Atenas (visitei a Acrópole há 12 anos, estou com saudades!). E aos poucos também comecei a procurar a chave, que eu revezo com um dos "moradores" do apartamento, e que eu havia deixado em cima da mesa de jantar. Não estava lá... Pensei: "tudo bem, vou pra lá e encontro eles". E seria tudo bem mesmo não fosse um detalhe: a porta estava trancada por fora! E daí... Bem, e daí que eu estava preso. Ah, e sem poder ligar pra ninguém (não tenho celular e o telefone do apartamento havia sido bloqueado pelos donos que o alugaram). Se tudo estava acontecendo lentamente até entao, o pânico trouxe uma quebra de ritmo. Como eu ia fazer?? Nas ruas, um deserto me fazia lembrar que hoje é um dos maiores feriados da Grécia (dia de Maria? Nossa Senhora?) e o único movimento visível a metros era o das oliveiras balançando com o vento. Um pouco preocupado, mas ainda disfarçando, comecei a fazer um plantão na sacada do apartamento, na esperança de que alguém passasse por lá (tem muita gente, mesmo de outras TVs, hospedada no mesmo esquema; geralmente é fácil encontrar alguém com o poderoso crachá olímpico pendurado no peito andando na calçada - geralmente... mas hoje é o tal feriado...) . Não passava ninguém. Vinte... Quarenta minutos... Uma hora... E meia... Finalmente, logo depois que um carro passou tocando a música "Trick Me" no último volume, eu avisto um crachazinho ao longe e grito: "Help"! (sei que parece um pouco ridículo, mas você tem outra sugestão?). O cara falava algum inglês e eu pedi a ele ligar pro único celular que eu tinha anotado de alguém da nossa equipe, passando um recado de que "Zeca estava preso no apartamento". Bem, o que veio em seguida foi uma versão mais moderna daquela brincadeia conhecida como telefone sem fio. Acho que ainda não falei, mas eu estava isolado no quarto andar do prédio, gritando pra alguém passar um recado pra alguém vir me "soltar"... Essa tarefa simples levou uns oito minutos - e eu só fiquei imaginando o que o meu colega que atendeu do outro lado estava imaginando... Confusões à parte, o esquema deu certo - e mais un 40 minutos, a Daphne (que eu imediatamente rebatizei de Santa Daphne) estava lá com uma chave e eu já estava na rua, indo encontrar os amigos na Redação - e me preparando psicologicamente pra pagar o maior mico por lá. Aliás, é claro que TODOS me alugaram como puderam - e quando eu já estava deixando de achar graça na história, vim aqui pra um terminal pra escrever isso - não sem antes achar a música de Kelis na internet pra escutar ininterruptamente. Aliás, por falar em "Trick Me", pra onde você vai mandar hoje mesmo?

Mundo, Sábado, Agosto 14, 2004
Não tá fácil concentrar...

Eu tô tentando trabalhar... Juro! Mas como, com sete monitores de TV ligados aqui na Redação da Globo em Atenas, cada um com uma competição mais emocionante que a outra - nenhuma delas mais hipnótoca do que o vôlei feminino!! O que eu tenho de fazer é simples: os textos deste domingo, que vão ser o roteiro das reportagens que você vai ler amanhã. Geralmente - e com a prática que a própria viagem me deu - tiro isso de letra: em duas horas, três, no máximo, eu completo a tarefa. Acontece que estou aqui desde às 9h da manhã - e ainda não terminei o que eu tenho que fazer. Agora então, que o Brasil está jogando contra o Japão - ah... agora que vai atrasar tudo mesmo... Devo estar "contaminado" com o espírito olímpico. Percebi isso quando me dei conta de que estava acompanhando, com muita atenção, uma competição de tiro - e torcendo! Tiro!! Só nessa manhã de sábado, já vibrei com remo, natação, esgrima (!), ginástica olímpica masculina - até basquete, um dos esportes que eu ainda não aprendi a gostar... Mas nada - NADA - se compara à emoção de ver o maravilhoso balé do vôlei. Já passei por Cuba x Alemanha, Rússia x República Dominicana - e agora estão lá, nossas brasileiras, com vantagem, é claro, mas quase me matando do coração. Isso 'não é nada, eu sei, é só um jogo preliminar. Mas mesmo assim - pra mim, é tudo final! Meu olho fica tenso de acompanhar a beleza desses movimentos. É tudo muito rápido - e ao mesmo tempo possível acompanhar esses passes, saltos, bloqueiso como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta. Como elas conseguem? Não sei nem como eu consigo assistir. Sou tão apaixonado por vôlei que, a cada partida que eu começo a assistir, eu faço aquela promessa de parar de ver - com medo de não aguentar... Você sabe o que eu tô falando - vai dizer que não conhece essa sensação? As meninas já ganharam os dois primeiros sets e agora estão numa pausa. Meu coração também - e vou aproveitar pra continuar o texto de Meteora... Leila comenta o jogo. Há algumas horas, ela estava assistindo Rússia x República Dominicana do meu lado, trocando comentários comigo - quer dizer, ela fazendo os comentários mais emocionados, quase pessoais (afinal, ela conhece a maioria dessas jogadoras de perto!), e eu só ouvindo e pegando as observações "no bloqueio". Imagine: o que eu posso falar pra essa garota que já me fez chorar de tanta emoção (e que agora está lindíssima com esse novo visual)? Melhor só ouvir... Começa o terceiro set - e o texto de Meteora 3 vai ter de esperar mais um pouco... Tá meio apertado... Agora elas abriram uma vantagem... Dá vontade de ficar narrando - e, como eu sei que não sou bom nisso, vamos dar um tempo até o resultado... Elas ganharam - e elas são tão lindas... Bem, ainda ia contar sobre a nossa chegada estranhíssima ontem em Atenas (chegamos de Meteora, de carro, talvez no pior horário possível para estar em Atenas, às seis da tarde, quando todas a sensação era de que adentrávamos uma cidade-fantasma - tudo fechado - e as ruas de acesso ao estádio olímpico e à sua vizinhança - onde estamos hospedados - estavam bloqueadas... e eu o o Guilherme tivemos que "ligar" o GPS biológico pra não ter de dormir no carro!). Mas se eu não terminar esses textos agora, você não vai poder ver todo o fascínio de Meteora amanhã... A não ser que, num dos sete monitores na minha frente comece uma competição muito emocionante... Eu sigo tentando trabalhar... em plenas Olimpíadas 2004...

Mundo, Quinta-feira, Agosto 12, 2004
Por-do-sol (pensando melhor)

Nao tenho vergonha de rever minhas posicoes... Alguns dias atras escrevi sobre um livro que eu estava lendo, de um autor chamado Geoff Dyer. Era sobre o cometario que o autor tinha feito sobre o "espetaculo do por-do-sol" - em linhas rapidas, que era sempre a mesma coisa, que ele nao entendia o que todo mundo via de especial, opinioes que eu, em parte, assinava embaixo. Talvez tenha sido o livro que eu estou lendo agora (o primeiro volume dos ensaios de Montaigne). Talvez tenha sido o descanso metal que eu estava precisando. Ou talvez simplesmente o visual estupendo que estava na minha frente!!! Devo dizer aqui, retificando, que fiquei encantado com o que vi hoje. Tah certo que eu vinha de uma jornada que jah prometia. Aquela visao de fim de tarde que eu mencionei ontem, logo que chegei em Meteora provou ser mais que uma simples surpresa. Esses mosteiros construidos nao sei como nessas pedras altissimas nao estao simplesmente mais pertos do ceu: eles sao a propria confirmacao de uma feh incrivel! Se voce pensar que a maioria deles tem mais de 500 anos, o simples fato de eles estarem ali jah eh impresionante. E aih ainda vem a natureza dramatica da regiao e enfeita tudo um pouco mais. Hoje em dia, apenas seis mosteiros estao abertos para a visitacao. Ainda bem! Eu talvez nao aguentasse tanta coisa bonita num dia soh... E ainda por cima com esse por-do-sol... Eu e Guilherme passamos o dia discutndo (no bom sentido) qual era a visao mais estonteante. "Vamos ali". "Nao, com essa luz, temos que pegar aquela imagem". "Aposto que voce ainda nao viu aquela caverna". "A abertura da reportagem tem que ser aqui". "Nao, tem que ser aqui". "Que tal aqui?". "Ou aqui?". E assim o dia foi passando... ateh que, lah pelas 20h30 o sol resolveu me convencer que, de vez em quando, ele oferece o melhor espetaculo da terra. Voce vai ver no domingo. E sinta-se aa vontade pra pegar meu braco e torcer...

Mundo, Quarta-feira, Agosto 11, 2004
Era inevitavel: meu Top 5 (1/2)

Coisas de quem passou a adolescencia gravando fitas de musicas pros amigos - e chegou aos 40 mudando nao a mania, mas o suporte (agora eu gravo CDs...) - conhece bem. Coisas alias, que quem leu o "classico" "Alta Fidelidade" (existia um livro antes do filme, sabia? Ah, voce nem viu o filme?...) tambem jah conhece. Eu gosto de fazer listas! E mais cedo ou mais tarde isso ia acabar acontecendo nessa Fantastica Volta ao Mundo. Fiz varias listas mentais ao longo desses dois meses e meio (jah!!). Mas agora resolvi escrever. E o "top 5" (o "1/2" eu explico depois) eh dos momentos mais especiais da viagem ateh agora. Decidi fazer justamente quando estava num desses momentos: parei pra contar e... era o quinto. Entao, por que resistir? Estava eu justamente tomando um cafeh na Cisterna de Istambul, quando veio a inspiracao. Nao, voce nao viu esse lugar na reportagem de domingo - foi daqueles que nao deu tempo de visitar antes do programa ir ao ar... Assim, na segunda, antes de comecar a organizar a viagem pra Grecia, fui revisitar esse "oasis arqueologico" que eu tinha conhecido na primeira vez que fui pra cidade. Jah faziam 37 graus em Istambul (eram 10h30 da manha!) e eu estava passeando pela rua do comercio de Sultanahmet, a mesma onde explodiu uma das bombas do atentado desta semana - que eu soube alias, no aeroporto indo pra Atenas, e que, alias tambem, nao creditei! Eu passava ali todo dia. Tinha passado inclusive na segunda-feira a caminho da Cisterna (nao vou me alongar sobre isso, pois fica ateh dificil "comemorar" que nos escapamos dessa, uma vez que essa estupidez fez duas vitimas - e, sinceramente, esticar esse assunto eh dar a ele uma importancia que ele nao merece, pelo menos nao aqui, onde eu jah declarei que "viajamo em paz"...). Bem, mas voltando aa Cisterna, resolvi descer aos seus substerraneos para refrescar - literalmente. Eh simplesmente um reservatorio de agua... soh que imenso, e cheio de colunas antigas. Algumas delas sao especiais (como a decorada com um motivo que lembra lagrimas, ou as que tem na sua base uma linda cabeca de Medusa). Mas a beleza e a paz do lugar estao justamente no seu eco vazio, que nem uma guia que gritava em italiano para um grupo de turistas (algo que eu entendi como "nada de perder tempo aqui pois a gente ainda tem muita coisa pra ver em Topkapi"... perder tempo? Isso eh jeito de falar? Ou melhor, isso eh jeito de viajar? Ateh entendo que muitas pessoas nao tem outra opcao e ateh preferem uma excursao. Mas uma cena como essa que eu assisti eh justamente o que me deixa triste com essa expressao que deveria ser tudo de bom: "turismo de massa". Acho sim que o conceito eh maravilhoso: quanto mais gente puder viajar pelo mundo, melhor!!! Mas eles tem de ser respeitados como turistas - afinal, eles "cometeram" a ousadia de sair da sua casinha e... bem, eu divago...). Enfim, o unico som que eu realmente consegui prestar atencao nesse monumento era o das gotas d'agua que caiam em varios pontos da Cisterna no chao que, na verdade, eh uma piscina rasa (voce atravessa o lugar andando em passarelas sobre a agua - eh incrivel!). E, ouvindo esse gotejar, achei que esse era um momento sublime da viagem. Pensei rapido: quantos assim eu jah tive? Juntei cinco que aqui estao. Antes porem, soh queria deixar claro que momentos bons, geniais, inigualaveis, incriveis, inesqueciveis foram muitos... Mas sublimes mesmo... Aqui estao eles (sem uma ordem especifica, foi empate tecnico):

- descanso na Cisterna de Istambul
- escapada pra visitar sozinho o templo de Prea Khan, em Angkor, Camboja
- o salto de 125 metros no meio do lago em Auckland, Nova Zelandia
- visitar a arvore sagrada no templo onde estah um dente de Buda, em Kandy, Sri Lanka
- a chegada em Samarkhand, Uzbequistao

A maioria deles voce deve ter acompanhado no Fantastico ou aqui mesmo no blog (acho que fui "discreto" apenas com a arvore sagrada em Kandy). Por isso nao vou me alongar - alias, lista eh pra isso mesmo: pra listar! Entao aih estah... Ah, e tem aquele "1/2" do titulo, neh? Bem, ele fica por conta da chegada em Atenas. Explicando rapidamente (esse era pra ser um texto curto... dirigi quase o dia todo pra chegar em Meteora... estou cansado... eu nao aprendo...) foi emocionante chegar numa cidade que estah quase em ponto de ebulicao: todo mundo envolvido num esforco sensacional de fazer uma festa dessa grandeza acontecer; gente de todo lugar (acho que aqui dah pra usar essa expressao sem que ela soe falsa... eh gente de todo lugar mesmo!!); um clima de excitacao e de trabalho, de animacao e - um pouco tambem - de confusao; uma vibracao de uma cidade renovada, renascida com construcoes de estadios (e outros espacos) belissimos; e ainda, a alegria de encontrar os amigos da equipe da Globo que estao aqui jah na cobertura das Olimpiadas. Por tudo isso, por esse "frege" todo, a chegada ontem em Atenas (por onde eu inevitavelmente tive de passar pra vir a Meteora) leva esse "1/2". Mas, veja bem: o mais legal das listas eh que elas sao constantemente renovadas... Ateh o fim da viagem, quem sabe... Por exemplo, soh a chegada agora no fim da tarde aa Meteora jah deu a entender que pode ser que alguma coisa caia fora desse "top 5"... e "1/2"...

Mundo, Domingo, Agosto 08, 2004
Vai ser difícil...

Em mais uma da série de pequenas confissões que eu tenho feito aqui nesse blog, vai ser difícil deixar Istambul. O que está acontecendo? Eu deveria estar animadíssimo de ir para a Grécia na semana da abertura das Olimpíadas... Na verdade eu estou animadíssimo. Mas é que estar difícil deixar essa cidade. Estou olhando para a Mesquita Azul iluminada à noite... Não é fácil se despedir de uma visão dessas... Será que eu vou encontrar um cybercafé tão animado no nosso próximo destino (seja ele o que você escolher hoje à noite...)? Será que vou encontrar pessoas tão interessantes e animadas quanto à Claudia? Bem, fazendo um rápido balanço, eu já sei a resposta para essas perguntas: é claro que sim! O Destino, a Sorte, o Acaso - sei lá a quem atribuir isso! - sempre colocou no nosso percurso pessoas maravilhosas que nos ajudam a driblar a ausência dos amigos do Brasil ao mesmo tempo que abrem novos horizontes nos lugares por onde passamos. Por que seria diferente na Grécia (independente da cidade para onde a gente vá...)? Vai ser o máximo também... Então agora vou dar um último passeio aqui por Sultanahmet, respirar fundo e ir em frente. Você é quem manda...


Cyber-rave-café

Eu sei que sempre reclamo das horas intermináveis que temos de passar nos cybercafés por aí mandando as imagens pro Brasil. Mas nem disso dá pra reclamar aqui em Istambul... Tudo é tão maravilhoso nessa cidade que a gente consegue até se divertir num cyber. Aliás, esse lugar está mais pra um "club" do que pra um cyber. E qual o segredo? Música! O lugar que resolvemos nos instalar não tem exatamente uma vista para a Mesquita Azul (esse era um outro que também fomos, mas onde a velocidade não era tão boa - não ficamos). Mas essa Net Station (!) também está localizada em Sultanahamet, o bairro mais antigo de Istambul. E a moçada que toma conta arrasa na seleção musical: dois irmãos, Fatih e Cem (que se pronuncia "tchem") e mais um amigo, Ugur, um garoto cujo pai é turco e a mãe italiana - mistura aliás que permitiu que ele gravasse um CD especial pra gente, com os útimos lançamentos da Turquia e Itália. Variedade aqui não é problema. Vai de flashbacks preciosos, como "Everybody Dance Now" (C+C Music Factory) - se você tem menos de 15 e 18 anos, talvez você tenha ouvido essa música no berço; até o melhor do pop turco com nomes que nem minha criatividade mais enlouquecida poderia imaginar. Variações de ritmo de dança do ventre - do "deep-house" ao "trip-groove-chill-in", passando por foxtrote e mambo agogô - explodem das caixas de som. Isso, das 8 da manhã até a meia-noite. E pensa que a vizinhança reclama? Que nada! Todo mundo passa por aqui direto pra fazer uma social. A música só pára em alguns momentos: quando se ouve as orações nas mesquitas (explicando rápido, em determinadas horas do dia, os muçulmanos são convocados a orar, e as mensagens podem ser ouvidas em poderosos alto-falantes pendurados nas torres). Aí, o som do meu cyber "dá um tempo". Mas cinco, dez minutinhos depois... "party on!"... Tudo volta ao normal (se é que dá pra chamar música tocando nessa altura de normal...). Ficamos sempre animados em ir pra lá (ai se todo cybercafé fosse assim...). Hoje mesmo, chegamos tão cedo que nem os irmãos estavam lá (e trabalhamos um pouco na rua esperando Fatih chegar... só pra "adiantar o serviço"). Sem contar que, como estamos perto de tudo, eu e o Guilherme nos revezamos pra dar umas voltas por Sultanahamet. Tem sempre uma fotinho a mais pra tirar... uma lembrancinha pra comprar... quem sabe mais uma passadinha num banho turco... ou simplesmente dá volta de, mais uma vez olhar a mesquita azul. Mas, mesmo essas escapadas duram pouco. Primeiro porque a gente tem de ficar de olho nos arquivos de imagens que estamos mandando. E depois... quem disse que eu quero perder a próxima música que eles vão tocar?

Mundo, Sábado, Agosto 07, 2004
Porque eu adoro "city tour"

Você nunca sabe onde vai parar. Tudo bem, você sabe: quando "compra o pacote" vem um roteirinho no folheto, os monumentos que você vai visitar, os meios de transporte, o preço... Mas e as "áreas cinzentas"? Por exemplo, "almoço incluído"; ou "parada para compras". É inútil perguntar antes de embarcar. Ninguém vai te dizer direito. Foi assim que, no tour que pegamos pelo Bósforo (nome oficial: Viagem entre Dois Continentes), fui parar nessa loja de artigos de couro, com desfile de moda incluído no preço. Como assim? Como o dia começou num estreito tão importante para a história de vários países, passou por igreja com mosaicos bizantinos e acabou num saldão de jaquetas?? O processo é indecifrável... E é por isso que, quando você pegar "city tour" (e eu pego uns de vez em quando, por pura diversão), esteja preparado pra tudo. Nossa mesa de almoço por exemplo misturava um casal grego, outro francês, duas mulheres indonésias (de Moluca?) que moravam na Holanda (e que em seguida descobriram que a mulher do francês, na verdade era holandesa... e a conversa não parou mais) - e nós, dois brasileiros - em torno de uma mesa de kebabs. Era um grupo divertido - sempre é, se você souber olhar com boa vontade. Esses turistas dos grupos estão geralmente de "coração aberto" para conhecer outros turistas ("city tour", um catalisador social?). Aliás, eles têm o coração aberto para qualquer coisa, e aceitam as situações mais bizarras com uma candura comovente. Ser turista é isso mesmo: é receber informações sobre como os muçulmanos cobriram afrescos em igrejas antigas e, logo em seguida saber que você tem um desconto de 40% (atenção, 40%!!) nas peças criadas para grandes estilistas europeus (pode citar um; sua "fonte", segundo os guias, é na Turquia) - isso porque você é um cliente especial de determinada agência de turismo!! E eles (nós?) aceitam tudo! E compram tudo! Coisa boa é ser assim... Claro que essa não é a única maneira de conhecer os lugares. Existe ainda o turista que gosta de se chamar de "independente", munido de um poderoso guia na mão (geralmente com a capa tinindo de nova) e que se sente o mais esperto e descolado. Ele também se diverte. Sofre um pouco mais talvez - mas cada gota de suor é... isso mesmo: aprendizado! Tem o turista que adora fingir que não o é (tá fazendo o que então viajando fora da sua casinha?), e que gosta de dar uma esnobada nesses outros turistas... (aquele autor que eu já citei, Geoff Dyer, tem bem esse tom naquele livro "Yoga for People Who Can't Be Bothered to Do It" - e é isso que não deixa o livro ser tão bom). Esses é melhor deixar de lado (ele até prefere ser deixado de lado...). E existe também o turista que tem que mandar matérias toda a semana pro Fantástico, esse "ser" que gravita entre as duas primeiras atitudes citadas anteriormente e ainda agrega outros elementos graças à "santa deusa da imprevisibilidade". E o mais legal é que todo mundo viaja feliz. O bom de uma viagem é isso. Por pior que tenha sido, você volta contando alguma coisa, nem que seja uma piada sobre sua "tragédia" (falando nisso, ainda não estou preparado para falar sobre o vôo da Uzbekistan Airways, com havia prometido anteriormente... mais tempo, por favor). Aproveitei (do meu jeito) o "city tour" dos dois continentes - apesar de não ter comprado nem uma peça de couro na lojinha... E também tive a sorte de, por acaso, encontrar gente ótima que me levou a lugares incríveis. Passeando no centro "novo" de Istambul, Taksim, fui reconhecido por uma brasileira, Claudia, com quem fiz um contato imediato. Ela mora aqui há três anos, e também adora viajar. Só aí, já tínhamos assunto pra dois dias. Mas ela ainda foi mais especial, ajudando a gente num passeio por Sultanahmet (ela fala turco com perfeição - deu uma produtora e tanto!), e me apresentando pra alguma pessoas ultrainteressantes como a cozinheira Dilara - uma turca que mistura comida tradicional com sabores mais modernos (ela até já me fez uma encomenda do Brasil: farinha de mandioca... quem diria... uma iguaria na Turquia!!) - e que fez a melhor comida que experimentamos por aqui, no seu descolado restaurante na parte francesa da cidade, recém-renovada e ultra charmosa... Acho que ainda não tem "city tour" pra essa parte da cidade... (ai, ai... hora de encarar uma internet e começar a mandar as imagens pro Brasil... A sorte é que, pelo menos aqui em Istambul, tem cybercafé com vista pra Mesquista Azul...)

Mundo, Quinta-feira, Agosto 05, 2004
Não sou de chorar por qualquer coisa...

...mas esse espetáculo que a gente viu ontem à noite, foi demais. Não sei nem se dá para chamar de espetáculo, porque, da última vez que eu vi uma coisa assim (há anos, em São Paulo) o público recebeu ordem expressas para não aplaudir, já que o que estávamos prestes a ver era uma espécie de cerimônia religiosa, uma comunhão com o divino. E foi exatamente isso que eu vi então, o mesmo que vi ontem. Com um detalhe: no lugar de um palco de teatro, nós estávamos numa estação de trem em Istambul, mais precisamente, a estação de onde partia o famoso Expresso do Oriente. Mas e o espetáculo? Bem, é uma cerimônia Sufi. Como o folheto da apresentação explica, o Sufi é uma ordem ligada ao islamismo, fundada no século 13 por Mevlana Jalaluddin Rudi. A base dos seus ensinamentos, resumindo muito (muito mesmo), é que nós só devemos praticar o amor, e dedicar todo esse amor a Deus, até que estejamos totalmente desprendidos do ego. Essa ligação com o Deus é a própria manifestação do divino. Espere, isso aqui não vai virar uma aula de teologia. Só estou dando essa base para você entender essa dança que vimos. As imagens no domingo vão contar muita coisa, mas já dá pra você ir imaginando: seis pessoas entram num espaço, concentram-se e, aos poucos começam a girar ao som de uma música espiritual. Só isso. Só isso? É, só isso. Mas o que ela tem de tão especial? Exatamente essa simplicidade. Nos giros, que eles dão durante cinco, dez, quinze, vinte minutos - até meia hora na apresentação que vimos (em certas cerimônias eles são capazes de rodopiar por horas) - está justamente a conexão com o divino, o desprendimento, a oferenda, a entrega. Cabeça ligeiramente inclinada, olhos fechados, braços abertos (mão direita para cima, esquerda para baixo) - e as pernas a fazer um monótono trançado. Mas se o movimento em si é repetitivo, a vibração que ele inspira é hipnótica. As roupas (longas saias rodadas que lembram o movimento de um disco de vinil empenado a girar no prato da eletrola - atenção menores de 16 anos: pergunte o que é disco de vinil para seu primo mais velho; e pergunte o que é eletrola para o pai do seu primo mais velho) ajudam na captura do olhar. E aos poucos você esquece de contar os minutos que eles estão girando para tentar justamente uma conexão com o divino - nem que seja de carona... É de chorar, como eu disse no início. E veio bem a calhar depois de um dia, digamos, materialista como o que tivemos. Nada contra uma comprinha... mas passamos boa parte de hoje no famoso bazar de Istambul... E haja coisa bacana para olhar. Na verdade, tem tanta coisa que fica difícil resolver o que comprar... o efeito é meio atordoante. A certa altura foi preciso até para para tomar um café - turco, claro, com bastante pó na xícara. E ali, no cafezinho, fiquei amigo das donas do lugar. Tão amigo que uma delas (são irmãs) se ofereceu para ler o meu destino - sim, no pó que tinha ficado na xícara!! E o que ela contou? Bem, acho que eu mereço um pouco de privacidade...

Mundo, Terça-feira, Agosto 03, 2004
Das coisas que nao vao dar pra mostrar...

Acabo de sair de um banho turco. Na Turquia. Nao eh um banho turco soh porque eu jah estou na Turquia, claro, mas sim um banho daqueles que deu origem aa expressao: uma grande pedra de marmore aquecida (uma chapa, na verdade), numa sala cheia de alcovas onde voce fica jogado, derretendo... e de vez em quando vem alguem fazer massagem (turca, eh claro) nas pobres vitimas (ainda nao experimentei dessa vez, mas me lembro que quando o fiz, ha anos, os resultados foram devastadores...). Queria mostrar como eh esse interior, tao especial (essa casa que fui tem mais de cem anos...) mas.. sem chances... Nem com microcamera... isso vai ter que ficar por conta da imaginaçao... O que mais? Jah fizemos um pequeno passeio em Sultanahmet, jah comemos um jantar (turco, claro) e agora soh falta uma boa descansada. Foi um daqueles dias de viagem, com uma agravante: provavelmente porque o voo era pra Turquia, a segurança no aeroporto de Bucareste era absurda. Todas as nossas malas foram abertas. Ou melhor, elas foram desarrumadas, examinadas (e, claro, voce acha que algum agente de segurança se dispos a arruma-las de novo?). Com a proximidade das Olimpiadas - e com a situaçao tensa crescendo no mundo, dah ateh pra entender a preocupaçao. eu, claro, nem reclamo, pois qualquer inspeçao de segurança eh bem vinda... O problema foi que eu queria chegar logo em Istambul... E ficamos lah (nos e todos os outros passageiros) arrumando nossas coisas e perdendo minutos preciosos. Bem, mas agora jah estou aqui - e pronto pra explorar essa cidade cheia de energia amanha (e reservar uma horinha pro banho turco...).

Mundo, Segunda-feira, Agosto 02, 2004
Constantinopla!

Já estive em Istambul (que às vezes eu ainda acho que ainda deveria se chamar Constantinopla... não tem mais "clima"?). Duas vezes. A primeira foi de férias. A segunda... Bem, talvez você tenha acompanhado no Fantástico, há uns cinco anos (a memória pode falhar...). Na verdade eu estava em Liechtenstein (um pequeno principado na Europa, tipo Mônaco), cobrindo uma apresentação do Cidade Negra num festival por lá, quando veio a ligação do Brasil: era pra eu ir pra Istambul pois tinha havido um terremoto por lá. Foi uma correria (achar passagem para chegar lá era fácil, mas para sair... quem disse que tinha?). Mas fui assim mesmo, fazer a reportagem e encontrar um cenário muito triste. Especialmente porque eu já tinha conhecido o lugar - e ver ele então num contexto de tragédia foi difícil. Por isso essa escolha dessa semana me deixou "extra-contente": vai permitir que minha memória faça as pazes com essa cidade tão fascinante. Mando notícias de um café em Sultanahmet!! (ai, o café turco... que delícia!)


Mundo, Domingo, Agosto 01, 2004
Dor

Peguei essa mania agora... passear no dia de domingo, na cidade onde estamos. E, pior, passei a me emocionar com esses passeios. Seja por conta de um casal que anda abraçado. Seja pela elegante melancolia de uma fachada de uma casa abandonada. Seja por uma foto em frente a uma fonte. Ou um banal pôr do sol (acabo de terminar um livro quase genial, de um cara chamado Geoff Dyer, "Yoga for People who Can't Be Bothered to Do It"; o "quase" fica por conta das piadinhas fáceis que ele faz - é um livro de viagens; mas vale a pena destacar passagens como a que ele diz que geralmente os clubes mais disputados são os mais exclusivos, difíceis de entrar, mas que os mais legais de frequentar são justamente o oposto, clubes - e bares - onde todo mundo é bem-vindo... me lembra o Ritz, em São Paulo...; ou, justamente o que eu queria assinalar aqui, aquele trecho onde ele fala que não existe espetáculo mais inútil que um pôr do sol... como as pessoas se sentem obrigadas a se deslumbrar com uma performance da natureza que simplesmente "está lá"... Tomara que alguém traduza rapidinho isso pro Brasil). Enfim, o que eu queria dizer é que meio dia de folga já faz a gente comemorar. E essa tarde de hoje, ciceroneada pela nossa amiga daqui, Andréia (essa que está na foto da fonte comigo), valeu pelo esforço hercúleo de mandar as imagens pela internet nessa madrugada - como não achávamos um cybercafé decente, tive de pegar um quarto num hotel cinco estrelas em Bucareste, para poder usar o "business center" por 24 horas... (e antes que você já fique pensando que eu tive uma noite de luxo, já digo que "montei barraca" no tal "business center", de onde só saí às 7h30 da manhã; como o check-out do hotel era às 11h, faça as contas e veja o quanto eu aproveitei essa mordomia toda...). Ah, os detalhes que quem vê a reportagem no ar, hoje à noite, nem desconfia... Por isso, mais uma vez eu pergunto: para onde será que você vai nos mandar?? Ooops, e eu já ia me despedir sem explicar o título desse texto... Já viu algum brasileiro se orgulhar que a palavra "saudade" só existe em português? Ou melhor, que uma palavra (não vale expressão) para exprimir "saudade" é exclusividade da nossa língua? Pois bem, fique sabendo que o romeno é a única outra língua no mundo que tem uma palavra que traduz exatamente esse sentimento. E essa palavra, em romeno, é... Dor (que, diga-se, não significa "dor"; aliás, pronuncia-se "dór"). Fascinante? Eu que o diga... Espero que as pessoas de quem eu sinto mais saudades a essa altura da viagem leiam isso. É com você mesmo...