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Mundo, Domingo, Setembro 19, 2004
Aquele mesmo carrinho...

... aquele que lá no início desse blog eu dizia que parecia traduzir a sensação de antes de começar a aventura, aquele da montanha russa que estava prestes a partir para uma descida sem freios - esse carrinho está desacelerando. Já está desacelerando, aliás há alguns dias. Mas agora é questão de horas - e a desaceleração é frenética (é possível?). Na verdade, é uma questão de minutos até sentarmos no avião que vai nos levar de volta ao Brasil. Números (será o quinquagésimo-quarto avião), imagens (como essa última foto em Lisboa), lembranças, conversas - tudo parece estar se comprimindo mais rápido na memória à medida que o tal carrinho vai perdendo velocidade. Como na própria montanha-russa, já vemos lá na frente o ponto de parada, depois de tantas piruetas, curvas duvidosas, trechos de cabeça pra baixo, mudanças abruptas de direção - e raros trechos de tranqüilidade. Sem querer, a imagem da montanha-russa (que "tirei do bolso" sem pensar, apenas na aflição de escrever alguma coisa antes de sair) acabou sendo a mais adequada. Está parando. Parando. Parou. E o resto do mundo? Esse, felizmente, continua a rodar com a gente dentro!!

Mundo, Sábado, Setembro 18, 2004
Você acredita quando alguém diz...

..."eu não gosto de despedidas"? É difícil mesmo de acreditar. Sempre parece que a pessoa tá fazendo um gênero. E geralmente tá mesmo. Mas eu não consigo pensar em mais nada pra dizer numa hora dessas. Ou melhor, o que eu quero dizer é que... bem... eu não acredito muito em despedidas. Explico: já disse adeus pra tanta gente e tantos lugares que eu não tinha idéia quando (nem "se") eu iria rever. E o que o acaso sempre trouxe pra mim foram alegres retornos. Acho que por isso aprendi a dizer apenas "tchau". Às vezes até um otimista: "a gente se vê"; "até breve"; e eu realmente quero dizer isso. A viagem está bem perto de acabar. Vai ter outra? Como eu posso saber. A essa altura, no ano passado, eu não tinha nem idéia que essa ia existir. Não me passava pela cabeça que um lugar tão incrível como Angkor, no Camboja, por exemplo, estaria de volta ao meu cotidiano em menos de 12 meses. Ou que a Turquia que me trouxe tanta alegria e tanta tristeza ainda me esperava com pessoas incríveis para eu conhecer. Onde eu vou encontrar de novo a Andréia e o Cornel, meu amigos de Bucareste? Não sei. Só sei que vou encontrar. Será que eu cumpro minha promessa pessoal de voltar a Queenstown, na Nova Zelândia? Quem pode dizer? Vai dar pra repor minhas energias numa nova visita a Monte Albán, em Oaxaca, México? Quem sabe? Como vou praticar o pouco de kristang que aprendi em Cingapura? Não sei... Vou visitar os países que não foram escolhidos pela maioria do público? Como eu posso saber? Tenho vontade? Muita. Mas deixa, deixa rolar. A essa altura já estou em Lisboa, depois de uma sexta-feira intensa na Madeira (e essa foto no cesto que desce pelas ladeiras de Funchal, uma espécie de esporte radical madeirense, foi só parte do que fizemos ontem...). Aquela linha que separa a excitação da curiosidade e da nostalgia, cada vez mais tênue. Olho pras coisas que eu tenho que fazer caber na mala e penso mais de uma vez em desistir da tarefa. Quem sabe ainda não vou dar um passeio por Lisboa, já que o dia está glorioso? Ou fico aqui me despedindo? Ah! Lembrei que eu não gosto de despedidas...

Mundo, Sexta-feira, Setembro 17, 2004
Curral das freiras

Como não se apaixonar por um lugar que tem uma cidade com esse nome? Aliás, quer que eu liste todas as coisas pelas quais me apaixonei nessa última etapa da viagem? (devo confessar que muito me incomoda escrever a palavra "última"; e como eu prevejo que vou ter de escrever algumas vezes essa palavra nos próximos dias, podes imaginar o nível do incômodo?) Vamos tentar uma lista breve. Por exemplo, o mercado de Funchal. Onde mais você pode escolher entre cinco tipos de maracujá: maracujá-banana, maracujá-limão, maracujá-ananás, maracujá-maracujá (acredite!) e até... maracujá brasileiro? Sem contar uma variação sobre o tema, que, diga-se, não é bem uma variação pois afinal é um... tomate. Inglês, aliás. Doce? Salgado? Difícil precisar - mas dá pra dizer com certeza que é uma delícia (hoje mesmo experimentei um "sorbet" feito com essa fruta - fruta? - e posso assegurar que não existe sabor como esse...). Se eu for continuar na comida, eu teria de começar a descrever as inúmeras variações sobre o tema "peixe-espada". E nem eu, que passeio por maus bocados de paladar, estou com apetite pra isso. Posso então começar a descrever os motivos geográficos para você se apaixonar pela Madeira. Onde mais existe uma fajã com um precipício de 350 metros? Não sabe o que é fajã? Não se preocupe! Eu também aprendi aqui! Na definição mais breve, é um trecho de praia que se forma quando há um deslizamento de uma rocha. Que tal? E a fajã que nós visitamos não é simplesmente uma fajã... É a Fajã dos Padres (sem relação, espero, com o Curral das Freiras!!). A paisagem é das mais impressionantes - mas que quase fica pra trás diante do elevador no penhasco que temos de descer (e depois, ó pá, subir!) pra visitar a tal fajã! O mar lá na frente, azul, azul - aliás por todo canto (mas se quiser uma vista especialmente bonita, tente um hotel ultra moderno num lugar chamado Ponta do Sol. Quer saber a razão desse nome? De lá é possível ver o sol nascer e se por no mar... Um lugar, digamos, iluminado!! Mas se o precipício da Fajã dos Padres for pouco pra você, pode ir um pouco mais alto, no pico do Areeiro. Uns 1810 metros de altura tá bom? É tão alto que você fica literalmente acima das nuvens. Pra quem (como nós) já pegou mais de 50 vôos (51 até agora - pra ser preciso...) e já quase se acostumou com a hora que o avião atravessa as nuvens, estar no mesmo nível que elas é, no mínimo, emocionante! Uma trilha vertiginosa nos convidava a passear por todos os picos da região (e "passear" um pouco mais nas nuvens), mas essa é das coisas que vou ter de deixar pra próxima vez. Já disse alguma vez nesse blog que a única coisa não muito boa dessa viagem é que... não dá pra esquecer que estamos trabalhando?? Bem, sempre é bom repetir isso - mesmo que estejamos há apenas dois dias antes da volta ao Brasil... Mas eu ainda estou na Madeira, e se me lembro bem, listando as coisas que fizeram eu me apaixonar pela Madeira (esclarecimento: fizeram eu me apaixonar "de novo", pois quando estive aqui, em dezembro do ano passado... foi quando tudo começou...). Ah, sim, tem as pessoas! Dos "gajos" que trabalham aqui no cybercafé à amigos queridos que fiz da outra vez (Nini, estou falando com você! - é ela que está na foto comigo!), não conheci ninguém que não fosse extemamente simpático, agradável e, o mais importante nessa nossa jornada, receptivo. Quer combinação melhor que amigos e um bom vinho? Pois, se o primeiro já estava garantido, o segundo não foi difícil de encontrar. Famoso no mundo inteiro, o vinho Madeira é bem envelhecido e tem um gosto mais forte, um pouco mais ácido, mas é uma delícia. Imagine então o prazer que eu tive de poder tomar uma dose de uma garrafa que trazia o meu ano no rótulo! Que coisa... nascemos juntos e... 41 anos depois, finalmente nos encontramos... Estou escrevendo depressa, tentando listar todas essas coisas num ritmo meio alucinado. Mas isso também tem um motivo - ainda que não muito aparente. Estou tentando não pensar que estou nos últimos momentos dessa aventura. Aliás, se estou tentando fazer isso... melhor mudar de assunto. Vou começar de novo: como não se apaixonar por um lugar que tem uma cidade que se chama Curral das Freiras?

Mundo, Terça-feira, Setembro 14, 2004
O resto do mundo

Esse texto ia ter um título diferente. Ia se chamar "A Má Educação", em homenagem ao novo filme de Almodóvar, que eu vi no domingo passado. Mas muita coisa aconteceu (dentro da minha cabeça, pelo menos) de domingo pra cá. E eu me lembrei desse "slogan" - que, na verdade eu estou pegando emprestado de uma das minhas revistas favoritas, "Colors". Não é muito facil de achar no Brasil; também não custa muito barato; mas se você estiver na dúvida do que fazer com aqueles R$ 30 (talvez um pouco mais, perdi a referência) que sobraram... compre uma "Colors". É uma revista temática - era bimestral, agora virou trimestral. Editada na Itália, em várias línguas (tente pegar uma versão em espanhol), ela escolhe um assunto e mostra, de um ponto de vista que você nunca imaginou, como ele é presente em países que você não costuma ver na mídia - pelo menos não com essa abordagem. Explicar a "Colors" é tarefa hercúlea aqui para o blog. Tente ver. Até porque eu só citei a "Colors" por causa do seu "slogan" - que eu tomei emprestado. "Uma revista sobre o resto do mundo". Eu sempre lia isso e pensava: "que exemplo!": Sempre achei legal mostrar como é possível despertar o interesse das pessoas na vida cotidiana de outras culturas. É sempre muito fácil seguir a linha do documentário de canal a cabo, vendendo culturas antigas como meras curiosidades baratas. Comentários rasos na linha "os africanos são assim... dóceis e amigáveis"; "os caribenhos apreciam, acima de tudo, uma boa festa"; "a Groênlandia encanta por seus mistérios"; sempre me pareceram um caminho fácil, uma concessão à imagem pronta que o próprio espectador (ou leitor) quer receber sobre um país (ou cultura) diferente do seu (da sua). Viajante que sou, muito antes desse projeto, eu acabei descobrindo um outro olhar. É mais ou menos o olhar da "Colors", que vou tentar elaborar agora. Aliás, nem preciso elaborar muito, se você acompanhou a nossa série, pois era justamente esse olhar que eu tentei imprimir nesses últimos quatro meses. Mas, pra quem perdeu, explico rapidamente: eu acho que esse mundo é fascinante - e não só por que é diferente, colorido, diverso, estupendo, milenar. Eu acho que esse mundo é fascinante justamente porque, embaixo de tudo isso, a gente é muito igual. Já toquei nesse assunto antes, aqui mesmo. Quanto mais diferente (à primeira vista) o país que eu visitava, mais eu me esforçava para achar pontos em comum com o mundo que eu conheço (que é, em boa parte, o nosso daí do Brasil). E isso, repetindo esteve me orientando desde a partida. De repente (só pra voltar no título), era eu quem estava lá, "explorando o resto do mundo"! Mas levou (e estou sendo bastante honesto aqui) exatamente quatro meses para eu perceber isso... As lições que acabei tirando disso ficam pra uma outra hora. Deixa eu antes descrever como eu tive esse... estalo! Chegamos hoje em Funchal, na Ilha da Madeira - nosso último destino antes de voltar para o Brasil. Viemos de Lisboa (Portugal), onde passamos uma noite. Noite essa em que Madonna fazia seu primeiro show (histórico!) na cidade. Calma, eu não fui ver. Ou melhor, eu escolhi não ver. Eu já vi um show da Madonna. Aliás, eu já vi dois (três, se você considerar que o "Blonde Ambition" eu vi em Londres e em São Paulo). Eu não esnobei, não foi isso. Mas é que eu levei um susto de estar na mesma cidade onde ela estava fazendo show. Não estava preparado pra isso. De repente, Madonna ficou do outro lado do mundo. O que eu estou vivendo nessas últimas 18 semanas era o da "Colors". O que eu vivo, 90% do tempo, é aquele onde eu sei exatamente as datas de todos os shows da Madonna - e já calculo a possibilidade de poder assistir a um deles (por exemplo, quase embarquei numa caravana para assistir ao lançamento dessa turnê "Re-invention", em maio). Mas, pela primeira vez, eu percebi que estava acontecendo uma inversão de valores - de universo, talvez? Eu já tinha começado a pensar nisso no domingo, depois de sair do filme de Almodóvar, "A Má Educaçao". Eu não cheguei em Londres e fui correndo procurar o que estava passando nos cinemas (um indício de que as coisas estavam... "mudadas"?). Esbarrei num cartaz antigo do filme (acho que ele estreou por lá em junho) - já semi-coberto por um outro de uma companhia de telefonia celular - e resolvi ver se ainda estava em cartaz. Estava - em apenas um cinema. Achei estranho. Mesmo assim quis ver. Marquei hora (na verdade, um pouco antes do Fantástico entrar no ar aí no Brasil - saí do cinema correndo para poder falar com a Renata Ceribelli ao vivo!!). Fui. E o filme é genial. Nem todo mundo achou isso (não vou aqui fazer uma resenha de um filme tão complicado como esse; acho que vale a pena apenas dizer que o diretor dessa vez pegou pesadíssimo - o que pra mim é sinal de coragem - não essa coragem boba, clichê, só porque ele mostra garotos sendo iniciados sexualmente por padres católicos, mas coragem de ser tão atrevido com o espectador, de demandar mais e mais, e mais ainda do que nos seus dois últimos filmes; coragem de deixar sua imaginação superar as próprias notícias dos tablóides de onde o diretor que é personagem do filme tira idéias para futuras produções - o que, aliás, nos faz lembrar de "Fale om Ela"; coragem de... - bem, eu falei que isso não ia ser uma resenha...) Dá até pra entender porque as pessoas não gostaram muito. Mas não vou entrar em detalhes. Eu achei genial. Cito "A Má Educação" aqui só como provável pedra de toque dessa minha reflexão dos últimos três dias. Depois de quatro meses "no resto do mundo" eu comecei a perceber que as referências que eu sempre tive na minha vida é que tinham se tornado, bem... "o resto do mundo". O mundo para o qual eu estou prestes a voltar (o CD do Libertines; o livro do Paul Auster; o próprio filme do Almodóvar; a minissérie que vai começar a ser gravada na Amazônia; os convidados para o próximo grande festival de música no Brasil - três noites com um elenco bastante razoável!; todas as referências que sempre regeram meu cotidiano vão voltar a comandá-lo muito em breve. A partir de segunda-feira. E o que vai acontecer com esse resto do mundo que eu abracei? Tá certo, você pode argumentar que quatro meses é pouco tempo pra se apegar a uma "visão de mundo". Mas não é questão de se apegar. É mais do que isso. É deixar de poder contar pra tanta gente, como o Fantástico me permite contar, que o resto do mundo também é bem legal. É exótico sim, mas não apenas como uma figurinha que você cola no álbum e esquece na gaveta. Esse resto do mundo é, enfim, o mesmo mundo que você vive - e não é tão distante assim (o que é a geografia em tempos de internet?). Então, qual é a questão? Do que eu estou com receio de me desgarrar? Acho que só posso responder isso um pouco mais pra frente, quando eu fizer (de maneira suave, espero) a transição, ou melhor, a reconexão com o lado que antes de 16 de maio não era o "outro", mas o "próprio". Um mundo só, eu sei. Um mundo só. Pelo menos isso é o que eu quero acreditar...

Mundo, Sábado, Setembro 11, 2004
Estou tentando disfarçar...

...mas não estou conseguindo muito bem... essa é a penúltima semana - na verdade, entrando na última. E por mais que eu não seja sugestionado, o ritmo me parece um pouco mais frenético... Parece brincadeira, mas o dia começou hoje... de madrugada de novo - de novo com um alarme falso de incêndio (acho que esse hotel tem problemas...). Sério! Tudo de novo, todo mundo na rua, carro de bombeiros e... nada! Isso porque a gente estava ligeiramente cansado: pra visitar o lago Ness (aquele que diz que tem uma criatura pré-histórica), enfrentamos 12 horas de ônibus. Desnecessário dizer que o único bicho que encontramos foi de pelúcia... (as lojas de souvenirs superam todo aquele mercadinho do Drácula que vimos na Romênia!!!). E depois do (segundo) susto, voltamos de trem pra Londres (mais umas sete horinhas - a ida foi mais rápida, mas na volta pegamos um trem "pinga-pinga") e viemos direto para os escritórios da Globo aqui pra mandar o material. É sabado à noite em Londres! E eu estou aqui... O que eu não faço por essa volta ao mundo... Tem certeza de que está no final??

Mundo, Quinta-feira, Setembro 09, 2004
Como se a gente precisasse de mais um pouco de aventura...

Bem... não tem como colocar isso de uma maneira sutil... Fomos acordados às 4h30 da manhã com o alarme de incêndio do hotel disparando. Ou melhor, pelo volume que a sirene tocava você podia achar que era o alarme para o dia do juízo final!! E como você reage a uma coisa dessas? Já passou por isso? Bem, deixa eu tentar explicar. A primeira sensação e a de que você apertou sem querer algum botão errado durante o sono. Comicamente (comicamente agora, depois que passou) virei pro Guilherme e perguntei se ele tinha disparado algum alarme. Claro que ele fez a mesma pergunta pra mim... Por uns bons 2 minutos, nenhum de nós tinha noção do que estava acontecendo. O mesmo deveria estar acontecendo em todos os quartos, pois dali em diante começamos a ouvir passos no corredor. Passor duros, diga-se, de quem está correndo. Desesperado. Em questão de segundos, todos os hóspedes do hotel - inclusive nós, é claro - estávamos na calçada da "St. Mary Street", esperando os carros de bombeiro chegar. Mais uma madrugada em Edimburgo... Eu já falei que estamos em Edimburgo? E que a cidade é pra lá de linda? (mais de uma vez tivemos a sensação de estarmos visitando um cenário, pronto pra receber turistas... mas logo "cai a ficha" e você lembra que a cidade é bonita mesmo - você vai ver no domingo). Estava difícil de lembrar que a gente estava nesse lugar tão maravilhoso nessa situação tão... digamos... inesperada. E logo depois de um dia tão especial, onde a gente explorou toda a história e parte das tradições escocesas (aliás, explorei até um pouco das minhas tradições, pois bem aqui fui descobrir o brasão da família dos Camargo!!). São muitas coisas pra contar, mas as atividades aqui estão tomando muito tempo - e olha que não estou nem computando o incêndio nessa conta... Amanhã tem passeio pelos incríveis "highlands" - um visual que eu só conheço por filmes - e ainda uma visita ao Lago Ness (isso te lembra alguma coisa?). Mas, só pra terminar rapidinho, o incêndio acabou sendo um... alarme falso... só um susto... mas daqueles que eu não desejo que ninguém passe...

Mundo, Domingo, Setembro 05, 2004
De ficar tonto...

Não, não é de comida... Acho que aprendi minha lição depois do nosso roteiro gastronômico... A tontura a que me refiro é de tanto rodar. Não fisicamente, mas o olhar. De tanto ver os outros rodar. E eu já fui tão bom nisso. A cena que vou descrever agora aconteceu no meu - já tradicional - passeio de despedida por mais uma cidade. No caso, claro, Bilbao (de que cidade será que vou me despedir na semana que vem? E da viagem?). Uma tarde quente, mais quente do que os termômetros tentam te convencer. Uma quantidade de gente na rua em grupos desordenados - aqui não é feriado, óbvio, mas me lembrei de 07 de setembro no Brasil (um sinal de que estou de fato com saudades do meu país?). Uma porcentagem desproporcional de crianças correndo pelas calçadas e praças (muitas ou quase todas, curiosamente, a brincar com algo que eu já não via há muito tempo: reproduções de arma de fogo...). Cruzando a parte antiga da cidade, Casco Viejo, escuto uma música animada lá longe. E, melhor, vejo um grupo dançando em roda - o que tem um significado muito especial pra mim. Na época em que eu era um professor de dança, a base de tudo que eu ensinava era exatamente a dança de roda. É difícil de explicar aqui, mas esse movimento é de uma harmonia e simplicidade envolventes. E fiquei "viciado" nisso. Onde tem gente dançando em roda, eu paro pra ver (passei por uma cena assim em Atenas, recentemente, mas não tão emocionante). Enfim, uma dança de roda é quase sempre muito simples. Alguns passos podem parecer complicados, mas uma vez registrados, eles saem automaticamente das suas pernas e pés e, finalmente, você passa a se concentrar no objetivo final da coreografia que é a comunhão com todo o grupo que está dançando. É só isso. Mas é tão bonito. E o que eu estava vendo ali numa praça de Bilbao era um grupo de bascos (os lencinhos verdes e vermelhos amarrados no pescoço não deixava o público esquecer), deliciosamente se divertindo com esses movimentos. Tinha um público, é verdade. Mas uma outra coisa boa da dança de roda é que você não está dançando necessariamente para os outros... é para você... e para a comunhão. E ali fiquei olhando (e tirando umas fotos). Fiquei pensando no final da viagem - na roda que estou prestes a completar, que, aliás, não deixa de ser uma dança. Aproveitando esse momento de paz antes de partir para mais um destino (o penúltimo!). Na minha frente, um grupo, em sua maioria, de pessoas mais velhas. Os mais jovens, infelizmente, sempre achando que aquilo é meio sem graça, sem coragem de entrar na roda (mal sabem eles...). Mas, como já disse, quem estava ali dançando não se importava com nada. Nem com esse viajante aqui tirando fotos... Às vezes a dança virava de casal... mas sempre girando. E a tarde foi em frente. Eu também - fui a mais um cybercafé terminar de mandar o material. E encerrei o dia com os pensamentos cheios de rodas, tão curvas quanto as linhas do museu Guggenheim. Mais uma cidade. E os dias vão virando estações...

Mundo, Sábado, Setembro 04, 2004
Depois da comilança...

Sei que estou devendo uma receita de "pintxo". Mas é que ontem eu fiquei... digamos... experimentando todas as variedades possíveis - e acabei sem pedir a receita de um só deles... Serve "na intuição"? Então aqui vai um dos meus favoritos: lascas de bacalhau fresco cozido no azeite; alcaparras, gema de ovo cozida e ralada; filhotes de enguia, tomate seco; forre uma fatia de pão com o tomate seco; "embrulhe" as lascas de bacalhau com os filhotes de enguia; salpique a clara e as alcaparras. Fácil, não? Tudo bem, talvez filhotes de enguia não estejam disponíveis essa semana na feira do bairro. Mas para fazer um bom "pintxo" o único ingrediente que não pode faltar mesmo é imaginação. Refeições em miniatura, cada um que chega no pratinho traz a impressão de que ele foi cuidadosamente estudado pelo cozinheiro por uns 15 minutos antes de ganhar forma. Algumas paracem que dependeram de um projeto gráfico por computador para existirem. Mas mesmo o visual elaborado fica atrás da "sacada" do sabor. Isso é o que importa - e se surpreender a sua língua então, o chef dá pulos de felicidade. Percebo agora que, da maneira como estou contando, parece que só se come "pintxo" aqui (esse nome é mesmo... curioso, não?) numa cerimônia que só acontece nos restaurantes mais finos... Nada disso! "Pintxo" é coisa de bar de esquina, de boteco. É de comer a qualquer hora - e de perder a conta de quanto se comeu... Aliás, esse é o problema... Dei uma descontrolada! Justificando: uma das reportagens que estamos preparando para amanhã é justamente sobre comida - uma espécie de roteiro gastronômico de Bilbao - um assunto inevitável quando se está na Espanha, e mais ainda no País Basco. Assim, amanhecemos no "Mercado de la Ribera", fizemos algumas comprinhas (mantimentos!), e depois começamos a experimentar "pintxos"... e não paramos mais. Quer dizer, paramos. Para jantar. Já com a tarde bem adiantada, nos lembramos que um roteiro gastronômico que se preze não pode dispensar um jantar. E foi assim que, com imenso sacrifício, enfrentamos uma refeição "de verdade" (cinicamente nos convencendo de que "pintxo" não é exatamente almoço nem jantar...). E esse era o banquete modesto que nos esperava, preparado pela família Couso (você acha que não acabamos ficando amigo de todos e indo parar atrás do balcão? Ali na foto estão Carlos, o pai, Maria Jesus, a mãe, e Iban, o fillhinho!) : merluza (peixe) à basca; camarões ao alho; "pimientos" ("que me gusta!!") recheados; e - bravo! - o famoso "bacalao pil-pil" (bacalhau preparado na simplicidade do azeite e do alho - mas viva a simplicidade!!). Está lembrado de que passamos a tarde comendo "pintxo"? Pois é, esse então foi nosso... arremate. Nossa... E eu que já estava bem contente pois achei que ia voltar pro Brasil colhendo os louros dos quilos que perdi... Bastou uma semana na Espanha para meus planos serem arruinados!! E o pior é que eu não consigo parar de achar que ainda falta uma receitinha de "pintxo" pra eu experimentar... (tem uma de presunto cru amassado com pimenta-do-reino que...)

Mundo, Quinta-feira, Setembro 02, 2004
"A mi me gusta los pimientos"

Já tinha imaginado esse título antes de saber o que ia escrever sobre Bilbao... É que sempre que venho à Espanha me lembro dessa frase que uma amiga minha, a Betty, reproduz de um filme do Almodóvar (se alguém lembrar qual é, me avisa!). Geralmente ela vem junto de outra frase que é citada. Na mesma cena do mesmo filme, que é "...que tu madres és una loca!". Nem sei se é isso mesmo, mas essas duas frases passaram a fazer parte do meu imaginário da Espanha. Assim, mesmo para contar que já estive em Bilbao por menos de 24 horas, em 1998 (quando depois de entrevistar o Oásis - alguém lembra? - em Barcelona, eu peguei uma "ponte aérea" pra conhecer o novo museu Guggenheim, que tinha acabado de abrir), eu ia usar esse título. Minha intenção mudou totalmente (como de hábito), mas eu mantive o título, de tanto que gosto dessa idéia... E, bem, a intenção mudou porque, no lugar de fazer um "flashback" das lembranças da visita-relâmpago, a própria cidade me ofereceu coisa mais interessante pra contar. Assim, pra passar logo pelo assunto, Bilbao continua impressionante. O museu é, com o perdão do clichê, magnífico. E talvez ele tenha ficado mais lindo ainda com o contraste da parte antiga da cidade ("Casco Viejo"), que agora eu conheci. Mas isso eu vou deixar pra você conferir no domingo. A história que eu queria contar é que uma cena bem à toa me fez lembrar de uma das razões principais de eu gostar tanto da Espanha. É esse jeito que os espanhóis têm que, a princípio pode paracer um pouco grosseiro, mas que é apenas natural - e que, se você relaxar pode se divertir (e muito) com ele. Caso em questão: uma prosaica travessia de rua em Casco Viejo... Estava eu esperando pra atravessar a faixa em Casco Viejo, a parte velha de Bilbao, quando, já há algum tempinho ali esperando o sinal de "pietónes" abrir... uma senhora bem miúda, mas bastante espevitada (dicionário! corra!) vira pra mim e fala: "¡pero eso dura una eternidad!" (atenção patrulhas: provavelmente não estou reproduzindo aqui exatamente o que a senhora falou... meu espanhol é um pouquinho melhor que o básico... assim, admito que estou"chutando" as frases desse diálogo... "pero eso no és importante"...). Respondi meio sem jeito (e sem falar "español" direito, evidentemente), que era demorado mesmo, quando ela retrucou (sem me ouvir, claro) que ela estava lá há tanto tempo que já tinha comido metade do pão. Foi a que eu vi que de dentro da bolsa dela saía uma baguete enorme - na verdade, a metade de uma baguete enorme (pois a outra metade ela, de fato, já havia consumido). Já quis começar a rir na mesma hora, e fui tentando responder alguma coisa quando ela, elevando um pouco mais o tom da severo da sua voz e olhando bem pra frente, mas com uma intensidade com se estivesse fazendo uma acareação comigo, virou e falou: "¡y tampoco no está bueno este pan... a mi me gusta el integral". Levou menos de um segundo (bem menos) pra eu estourar numa gargalhada... Ao mesmo tempo que ela conclui seu comentário, o sinal abriu e eu comecei a atravessar a rua já num estágio bem avançado de um ataque de riso... A senhora então, concentradíssima, mirou do outro lado da rua, pegou mais um pedaço do pão e chispou. Enquanto eu ainda tentava (inutilmente) me controlar, ainda ouvi ela dizendo lá de longe... "suerte"... Era o que eu precisava para iluminar o dia - que, diga-se passou bem nublado (um dos dias mais "feios" que já enfrentamos até agora...). Depois disso, encarar um "pintxos" na Plaza Nueva ficou ainda mais prazeiroso. O que é "pintxo"? Resumindo bem, é um canapé. Mas não desse que você comeu na última festa de casamento que você foi. Bem-servido, o "pintxo", tradição basca, se aproxima do "tapa" - tradição espanhola de comer as coisas em porções (presunto cru, queijo "manchego", pão com tomate) pequenas em pratos que todo mundo divide. Só que o "pintxo" é isso elevado à categoria de arte. Por vezes esculturais, esses "canapés" (na falta de um nome melhor) são preparados com os ingredientes mais maravilhosos. Quer uma receita rápida, só pra ter idéia? Vai no próximo texto. Se não, não consigo aproveitar um pouquinho dessa cidade nesse clima que lembrei que gosto tanto entre os espanhóis - essa petulância nata, uma arrogância suave, uma provocação que não é, nem de longe, para ser aceita.